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10.01.2008 - O Evangelho da Vida

No próximo dia 26 de fevereiro, às 20 horas, no auditório da Fundação de Cultura de União da Vitória, o professor e escritor Frei Antonio Moser, religioso franciscano, Doutor em Teologia Moral e especialista em estudos de Bioética, estará ministrando a Aula Inaugural do Instituto de Filosofia e Teologia Santo Alberto Magno. O evento é significativo: nosso Seminário Diocesano, ao iniciar a caminhada de estudos em 2008, convida os professores e alunos de outras instituições, e o povo em geral, para conhecer um dos maiores nomes da Teologia atual, e debater temas dos mais candentes da atualidade: a Igreja e a Ciência estão em conflito? A Igreja é contra o progresso que a ciência faz nos campos da genética, manipulação de embriões, biotecnologia, clonagem? E a respeito da sexualidade, as propostas mais avançadas da sociedade na área do relacionamento, natalidade, saúde pública, são questionados pela Igreja, como se tudo fosse pecado?

Em Roma, o Papa Bento XVI cancelou a visita que faria a uma Universidade, na abertura do ano acadêmico, devido aos protestos de alunos e professores quanto às posições da Igreja. Seu discurso estava preparado para dizer que “o perigo do mundo ocidental é que o homem de hoje, dotado de grande sabedoria e poder, capitula ante a questão da verdade. A razão cede à pressão dos interesses e dos atrativos da utilidade, erigida como critério supremo”. Em outras palavras, o mundo de hoje cede cada vez mais aos interesses do lucro, da utilidade, empurrado pelo espírito individualista, pelo consumo e pelo prazer imediato. A violação da vida é por vezes apresentada como um progresso da ciência, da medicina e do comportamento. É o caso do aborto legalizado, da eutanásia, da pesquisa que trata embriões humanos como se fossem cobaias. Fica cada vez mais difícil para a consciência escolher a vida, quando a morte é apresentada como lícita e até desejável para o bem-estar das pessoas. O Papa, com um gesto corajoso, quis afirmar para o mundo que “a sabedoria das grandes tradições religiosas não pode ser impunemente expulsa da história das idéias.

A vida é um dom de Deus

Neste contexto é urgente e oportuno o tema da Campanha da Fraternidade 2008, a Fraternidade e a Defesa da Vida. O lema, tirado do Livro do Deuteronômio, “Escolhe, pois, a vida!” (Dt 30, 19b) vai questionar a nossa liberdade. Deus criou um mundo cheio de vida, de grande variedade e beleza, com infinitas possibilidades de desenvolver, multiplicar, dominar e cultivar a vida. Dotado de dons especiais – entre eles a razão e a liberdade – pode ele investigar, desenvolver, transformar e adaptar o mundo às suas necessidades. Pode também destruir, degradar, e matar a vida e a humanidade. É uma escolha. A ciência chega perto do milagre da vida. Já desvendou muitos de seus mistérios. Mas há uma barreira intransponível: não é possível criar uma vida nova, a não ser a partir de outra vida. A ciência não consegue construir uma semente que, colocada na terra dê início a uma nova planta, ou um robô que tenha vida, ou mesmo uma simples ameba. É por isso que tudo o que vive e respira, tem o selo de Deus, é um reflexo do Deus da Vida.

Cuidar da vida é um ato religioso

Reconhecer que toda vida é de Deus, tem como decorrência para o homem religioso, a obrigação de cuidar do que é Deus. Principalmente quando tantas e tão grandes violações da vida e da natureza são apresentadas como sinônimo de progresso e bem-estar, quando os interesses de lucro e dominação chegam a por em risco até mesmo a vida humana na terra, cuidar da vida, defender e proteger a vida, sobretudo aquela mais frágil e indefesa, passa a ser um dever de consciência. O Papa João Paulo II ofereceu ao mundo, no ano de 1995 Uma encíclica com o título sugestivo de “Evangelium Vitae”, no sentido mais original de evangelho como “boa-notícia” e disse que o evangelho da vida está no centro da mensagem de Jesus. Denunciou corajosamente as ameaças à vida e os grandes interesses que promovem a morte em nosso mundo e não deixou de mostrar também os sinais de esperança que estão presentes no progresso humano. Conclamou a humanidade, em nome do Deus da Vida a redescobrir os valores essenciais que exprimem a dignidade da vida, “que nenhum Estado, nenhuma maioria, poderá jamais criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover.” (EV, 71).

A boa-notícia da Vida na América Latina

O Documento de Aparecida retoma a expressão “Evangelho da Vida” em vários momentos, trazendo-a para a realidade latino-americana. Aqui também a vida e ameaçada e profanada de muitas formas, sobretudo na pobreza extrema, na violência e no crime organizado, na precariedade das políticas públicas de saúde e de educação, abortos em quantidade, agressões ao meio ambiente, leis aprovadas ou em tramitação que pretendem legalizar a morte. “A partir de nossa condição de discípulos e missionários, queremos estimular o Evangelho da Vida e da solidariedade em nossos planos pastorais”, diz o documento. “Queremos promover caminhos eclesiais mais efetivos, com a preparação e compromisso dos leigos para intervir nos assuntos sociais.” (DA, 414)

Exigência da Caridade é “escolher a vida”

Que ações, iniciativas, e frutos concretos irão surgir em nossas comunidades a partir desse tema da Campanha da Fraternidade, à luz do documento de Aparecida. Ainda estamos longe de dizer que o Evangelho da Vida está no centro da vivência cristã das nossas comunidades, embora esteja no centro da mensagem de Jesus. Mas o desafio está colocado diante de nós. A aula inaugural de Frei Antônio Moser, no próximo dia 26 de fevereiro será uma grande ajuda para a nossa consciência. A vontade e a força de Deus não faltará. O restante, é escolha nossa.


Dom João Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.com.br

 
 

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