| 12.06.2008
- De um coração
humano nasce a paz Recebi
o convite de ir ao Largo da Carioca, no coração
do Rio de Janeiro, para as celebrações
dos 400 anos do Convento Santo Antônio, e
o tema da minha pregação: “A
paz nasce no coração humano”.
Lembrei-me daquelas mais de mil crianças
e jovens de União da Vitória, em “caminhada
pela Paz e pela Vida”, numa recente e bonita
manhã de sol. Traziam faixas e cartazes,
mensagens de todos os tipos, dando continuidade
ao tema da Campanha da Fraternidade deste ano.
Crianças bem pequenas, com balões
em formato de coração, pareciam estar
conscientes de que a paz tem a ver com o coração.
Mais que tudo, tem a ver com aquele Coração
de Jesus que, lá do alto do morro, inspira
ao nosso povo, aos nossos jovens e crianças,
o modelo de Paz que todos buscamos, uma paz justa
e duradoura, nascida do amor.
A paz aqui e no Rio
Por certo, o grito de paz, das nossas crianças
de União da Vitória, é um
tantinho diferente daquele que se ouviria entre
as crianças e jovens do Rio de Janeiro.
A se levar em conta as imagens e notícias
que chegam até nós, estamos longe
de encontrar aqui, no sul do Paraná, o clima
de guerra que os meios de comunicação
insistem em nos mostrar: o arrastão nas
praias, a violência do trânsito, policiais
invadindo os morros, tiroteios nas favelas, crianças
e adolescentes nas fotos, com tarjas nos olhos
e arma aparecendo no bolso do calção,
a serviço do tráfico. Perto dessa
realidade de lá, a nossa caminhada “pela
Paz e pela Vida” pareceria pouca coisa além
de uma festa de cores e cantigas, marcha feliz
de crianças e jovens passeando ao sol de
maio.
Claro que não é bem assim. Nem o
Rio de Janeiro é essa guerra, nem União
da Vitória é essa paz. Em cada uma
das realidades se aninham os conflitos e discórdias,
as maldades e desigualdades, as tensões
e os medos, os egoísmos, e até as
violências, que corroem a Paz. E também,
lá como cá, nos corações
existem esperanças, grandezas, exemplos
generosos de fé e de luta pelo bem. E é num
coração assim – humano – que
nasce a Paz.
A Paz nasce e cresce
Paz não existe “pronta”. Como tudo o que tem vida, ela nasce.
Passa a existir quando as pessoas dão vida a ela pelo amor. Cresce quando
a cultivam. E, como tudo o que vive, pode morrer se não for bem cuidada.
Quando cresce e se torna vigorosa, é ela que nos guarda e alimenta. Ela é a
nossa casa, a nossa sabedoria, a nossa lei e a nossa vida. E essa a Paz que o
próprio Cristo Senhor, depois de fazê-la nascer, com cuidado, no
coração dos discípulos, depois de regá-la com suas
palavras e exemplos, depois de prová-la no fogo do sacrifício,
a trouxe definitiva e completa, na sua ressurreição, dizendo “A
Paz esteja convosco!”, e mostrou seu lado aberto, com as marcas da paixão. É por
isso que podemos atestar que a Paz nasce, isso mesmo, no coração
humano.
O Papa João Paulo II, numa dessas mensagens do dia Mundial da Paz – lembro-me
assim – fez essa ligação entre a Paz e o Coração,
coração no sentido bíblico, não apenas romântico-sentimental.
Na Bíblia, o coração aparece como símbolo da consciência,
dos valores, do relacionamento entre as pessoas e os bens. É o coração
que dirige nossos interesses e nele que surgem os conflitos. É lá também
que se cultivam a justiça, a verdade, a fraternidade e, portanto, a paz.
Jesus não teve dúvida em afirmar que “onde está o
nosso tesouro, ali estará também o nosso coração” (Mt
6,21). Nesse contexto é que diz o Papa: “A guerra nasce é no
coração do homem. É o homem que mata, e não a sua
espada!” ou, nos dias de hoje, os mísseis, as armas ou os arrastões.
Da mesma forma podemos dizer que é no coração humano que
nasce a paz, e não nos sistemas, nas estruturas, nas condições
sócio-políticas ou outros arranjos em que vivemos.
Mais humano ou menos humano
Ao falar em “coração humano”, humano aí não
quer dizer simplesmente de alguém que pertence à linhagem biológica
da humanidade, com relação às outras espécies do
mundo animal. Não basta isso para “ser humano”. Para ter esse
nome, é preciso que o tal coração – entendido no sentido
pleno de consciência, inteligência e vontade da pessoa – saiba
escolher o bem e guiar-se pelo amor. É sabido e experimentado na nossa
história humana, desde o pecado original, que o ser humano, desorientado
pelos desejos de ter, de dominar e de usufruir, pode erradamente considerar um
bem o mal que escolhe, e assim desobedece a lei plantada em seu coração
pelo Criador. Torna-se então menos humano, irracional e desumano. Exemplos
não faltam ao nosso redor, e não só lá do Rio de
Janeiro, mas aqui mesmo, nos nossos lares, nas ruas e nos campos.
Para tornar-se mais humano o nosso coração precisa de Deus. Nos últimos
séculos vimos o esforço feito pelo pensamento humano, pelas ciências
sociais e políticas, pela tecnologia do conforto, para provar que não
precisamos de Deus, nem de religião para sermos felizes. Sem religião
somos mais livres, mais senhores das nossas vontades e do nosso destino. Assim,
o ateísmo cresceu e hoje vemos seu vulto, visitando as nossas casas pelos
meios de comunicação, tomando o coração dos jovens,
roubando a paz dos lares que se desfazem sem remédio, elegendo governos
laicos que aprovam leis contrárias ao projeto divino, simplesmente porque
são úteis ao projeto humano de consumo, concorrência, prazer
e lucro. Quem perdeu com isso foi a Paz. Quanto tempo ainda vamos levar pra entender
que, desconhecendo o coração de Deus, o nosso coração
perde em humanidade, perde também a Paz. Precisamos ouvir o coração
divino que se fez humano pra nos ensinar a ser humanos. Ouvir esse coração
divino-humano que ao olhar para a cidade de Jerusalém, disse: “Ah,
se tu compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, isso
está escondido aos teus olhos.” (Lc 19,42) Será isso mesmo
o que diz o nosso Cristo do Morro de União da Vitória? Será isso
mesmo a mensagem do Redentor, do alto do Corcovado, na bela paisagem do Rio de
Janeiro?
Santo Antonio ensina o caminho da Paz
Lá estarei, então, na comemoração dos 400 anos do
Convento de Santo Antônio, no centro do Rio de Janeiro, sob o olhar do
Cristo Redentor. Vou levar os meus olhos, agora paranaenses, para desejar ao
Rio, a nossa Paz. Nesse Convento morou o Santo Frei Galvão, ali estão
as sepulturas dos membros da Família Real, ali aconteceram fatos históricos
da nossa pátria. Grandes e pequenos, artistas e políticos, letrados
e analfabetos vão todos os dias buscar nesse Convento o conselho dos frades,
as bênçãos de Santo Antônio, o pão dos pobres.
Ali se celebram quatro séculos de presença da Igreja na cidade
que foi, por muitos anos, a Capital do Brasil. Santo Antonio, homem de coração
muito humano, que soube entender o clamor das famílias, e por isso se
tornou o Santo do amor conjugal, soube partilhar o pão com os necessitados,
e por isso se tornou o santo dos pobres, soube apaziguar os ânimos exaltados,
e por isso se tornou o Santo da Paz, nos traga, do alto do Redentor, ou do nosso
Morro do Cristo, a Paz que necessitamos.
Dom
João
Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br
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