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16.09.2008 - Famílias em Missão

Um grande despertar missionário está em gestação na Igreja do nosso Continente latino-americano. Está se formando uma nova consciência missionária, que vai entrar pouco a pouco na nossa prática cristã. Eu disse “gestação” porque, quando um casal espera um filho, começa a haver uma grande transformação corporal, muda-se a rotina do lar, as prioridades econômicas se modificam, as próprias relações familiares, os comportamentos, os planos, e até a espiritualidade do casal se transforma. As orações se tornam mais freqüentes, e tudo indica que a vida ganha um novo centro em torno do qual todas as coisas gravitam: uma vida nova vai chegar. O casal coleciona na memória cada fato novo, cada sinal dessa vida nova. Assim está acontecendo na vida da Igreja, em seu casamento com Cristo (na Bíblia, o casamento sempre foi um símbolo da comunhão entre Deus e a humanidade). A Igreja, esposa de Cristo, se prepara para um grande nascimento: a Missão Continental. No Brasil, um novo Projeto Nacional de Evangelização está em fase final de elaboração, e terá como título: “O Brasil na Missão Continental”. O lema escolhido: “Viva a alegria de ser missionário!”.

Do lampião à rede elétrica – Como nos projetos anteriores, “A Igreja no Novo Milênio” e “Queremos Ver Jesus”, também desta vez, teremos à disposição os roteiros para Grupos de Reflexão, Roteiros Homiléticos, cartazes e mensagens para ajudar as dioceses e paróquias a abraçar o caminho missionário. Como nos projetos anteriores, depende de nós, dos sacerdotes e diáconos, das lideranças leigas, do nosso povo cristão, abraçar essa causa, abrir o coração, deixar-se renovar. Caso contrário, estaremos como moradores do interior que, mesmo passando por cima de sua casa os fios de alta-tensão, continuam iluminando a família com lampião de querosene. A comparação é forte, mas é isso que acontece quando o Documento de Aparecida nos pede para “abandonar as estruturas ultrapassadas, que não favorecem a transmissão da fé” (nº 365), e uma verdadeira “conversão pastoral” que vá além da mera “pastoral de conservação para uma pastoral decididamente missionária” (nº 370).

Paróquia Missionária - Nossos irmãos cristãos, membros da Igreja, muitas vezes ajoelhados em nossos templos, talvez nem levantam a cabeça para perceber esse novo espírito que sopra na Igreja. No Estrela Matutina de junho, eu falava da Assembléia do Povo de Deus - Regional Sul 2 , cujo tema se enuncia “Por uma Paróquia Missionária”. É o que a Igreja nos pede. E o documento de Aparecida aponta o caminho: (nº 372) “Levando em consideração as dimensões de nossas paróquias é aconselhável a setorização em unidades territoriais menores, com equipes próprias de animação e de coordenação que permitam uma maior proximidade com as pessoas e grupos que vivem na região. É recomendável que os agentes missionários promovam a criação de comunidades de famílias que fomentem a colocação em comum de sua fé cristã e das respostas aos problemas”. Estarão os nossos padres dispostos a enfrentar esse desafio? Quando eles vão à frente as coisas caminham. Estarão as famílias dispostas a se posicionar na linha de frente? Os nossos Grupos de Famílias já foram mais numerosos e atuantes. Será a hora de retomar esses grupos, à luz do novo projeto, com mais garra e ardor missionário?

Famílias missionárias – Estive participando, com mais três de nossa Diocese, do XII Congresso Nacional de Pastoral Familiar, no Rio de Janeiro. Eram mais de mil participantes de todo o Brasil, relatando os avanços e dificuldades da Pastoral Familiar. As conferências, painéis, debates e apresentações apontavam sempre para uma necessidade de a Família ser evangelizadora. De não deixar para terceiros – seja a Escola, a TV, o Estado, ou qualquer outra instituição – a responsabilidade de educar. Vimos o quanto é importante a Família se reunir para participar da Igreja juntos, de fazer do domingo o Dia da Família, de promover os valores cristãos no ambiente familiar. Para nossa Diocese a Juventude e a Família são prioridades. E nem deviam ser, pois, é clara a palavra do Santo Padre, confirmada pelo Documento de Aparecida, de que a Pastoral Familiar seja, de fato, um “eixo transversal” que perpassa todas as ações da Igreja, mais que uma prioridade. Penso então que não teremos “Paróquias Missionárias” sem que as famílias se ponham em missão. Nucleadas em Grupos de Famílias – chamem a isso “setorização” como pede Aparecida, ou “rede de comunidades”, como sugerem as Diretrizes (DGAE, 157) – o importante é que as famílias assumam e tornem concreta a “Missão Continental” que está a nascer.

Tarefa de todos – Aos sacerdotes cabe a tarefa de conhecer os subsídios, usá-los em suas homilias, sair de casa para motivar, organizar e acompanhar as famílias missionárias. Aos Movimentos e Pastorais cabe conscientizar e preparar os evangelizadores de hoje.  As famílias se colocarão em missão se forem de fato Igrejas Domésticas. Nas igrejas domésticas há sempre um momento onde todos se encontram para rezar e ler a Palavra de Deus. Precisamos reforçar a oração familiar, que já foi uma prática diária das famílias, e hoje é cada vez mais um fato raro. Não se pode estranhar que muitos filhos não sigam mais os pais. Nas igrejas domésticas todos procuram ir juntos à Igreja aos domingos, como testemunho da fé familiar e saboroso encontro com o Pai de todos. Nas Igrejas Domésticas, a educação para os valores humanos e a transmissão da fé se faz naturalmente entre os mais novos e os mais idosos, sempre em ligação com os fatos da vida. A catequese na Igreja é só complemento. Nas igrejas Domésticas o convívio com as outras famílias, a atenção aos necessitados, a comunhão com as famílias vizinhas e com a comunidade paroquial é uma fluente continuidade. Nas Igrejas Domésticas interligadas como numa grande rede, “comunidade de comunidades”, a ação missionária junto aos que ainda não crêem, não carece de argumentos, mas é só transbordamento do amor recebido do Pai.  A Missão Continental nasce primeiro, de fato, é na família. Daí é que passa para a Paróquia, para a Diocese e para o Continente em Missão.

Que Maria, Mãe da Igreja, e Rainha das Missões olhe por todos nós.

Dom João Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br

 
 

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