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24.11.2008 - A Palava e a Missão

Durante os dias do mês de outubro, mais precisamente de 5 a 26, acompanhamos notícias, testemunhos e pronunciamentos dos 250 bispos representantes dos cinco continentes, reunidos na 12ª Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos. E eu estava aqui me perguntando o que tem a ver essa importante reunião com as perguntas que fazíamos no “Estrela Matutina ” anteriror, sobre a “Conversão Pastoral”, a renovação das Paróquias, as Famílias e a Missão.

Vejamos: desse Sínodo dos Bispos resultaram propostas sobre a aproximação da Bíblia com a vida dos cristãos. Essas propostas  ainda serão levadas ao Santo Padre, que acompanhou todos os trabalhos, fazendo suas anotações, e por fim serão transformadas na esperada “Exortação Pós-Sinodal” sobre a Palavra de Deus na Vida da Igreja.

Não estão complicando demais?

Entendemos melhor a Palavra quando a lemos juntos, “olhando uns para os outros”, dialogando, entre nós e com Deus.

O caminho, aparentemente longo, para lidar com a Palavra de Deus, pode sugerir que essa gente está complicando demais. Afinal, não é simples abrir a Bíblia e ler? Cada um pode fazer isso no seu quarto, no banco do ônibus, na pausa do trabalho. Cada um pode entender o que Deus lhe quer dizer e pronto. Pronto? Não, essa é a receita pra não entender a Bíblia, e tirar conclusões simplórias e apressadas.

A Bíblia, antes de ser um livro de leitura individual, é uma Palavra viva, Jesus Cristo. É um livro dirigido a “nós”, como povo de Deus, como Igreja. Por isso entendemos melhor a Palavra quando a lemos juntos, “olhando uns para os outros”, dialogando, entre nós e com Deus. É Deus falando a seus filhos e os filhos falando entre si,  comparando a Palavra com a vida, e com a orientação segura da Igreja.

Nada melhor que o ambiente familiar, os pequenos grupos de vizinhos, a troca amorosa de idéias entre a juventude ansiosa pelas novidades do mundo de hoje e a serena experiência dos mais vividos, esse é o ambiente de Igreja onde se pode ler a Bíblia. Isso sugere que devemos, à luz do Sínodo, retornar com toda força aos nossos grupos de reflexão em família, que nos últimos anos foram, em muitas paróquias, foram perdendo sua força.

Aqui entra o papel fundamental de uma Paróquia renovada: ela deve ser a fonte incentivadora da pastoral bíblica. Deve ter uma escola de interpretação da Palavra que prepare os que vão aos grupos, mantenha contato, tire as dúvidas É o que afirmam as Diretrizes da CNBB (DGAE, 61ss). As propostas do Sínodo vão nessa direção: devemos descobrir caminhos para que a Palavra seja lida e vivida por todo o povo cristão. Nós temos uma grande tendência de reduzir a nossa vida cristã apenas à participação na liturgia dominical, aos sacramentos e devoções. Está na hora de darmos passos firmes, não para abandonar o que já fazemos, mas buscarmos um fundamento bíblico para a nossa vida cristã quotidiana.

A Palavra de Deus é para ser rezada

Lectio divina: “um meio de conhecer o coração de Deus através da sua Palavra”.

Passando pelas nossas paróquias, nas celebrações do Sacramento da Crisma, eu sempre tenho lembrado às famílias um antigo costume, infelizmente hoje mais raro: rezar em família. Antigamente era sagrado. E sem escapatória, para tristeza de alguns, mais novos,  que só ficavam de joelhos depois de levar uma repreensão. Hoje, mesmo com aquela contrariedade, louvamos os nossos pais. Eles cultivavam a oração familiar. Quando eu peço hoje que cada família encontre um momento de oração em comum, não penso em nada cansativo ou forçado. Hoje temos facilidade de ler, tocar uma música, inventar nossas orações. O rosário continua sendo uma meditação lindíssima dos mistérios de Cristo, e sobretudo podemos “rezar a Bíblia”, pois se ela é feita para dialogar com Deus, é preciso que ela esteja presente nessa hora. Os bispos no Sínodo lembraram uma expressão latina para o uso da Bíblia, que é a “lectio divina”, que se resume em quatro momentos, a leitura, a meditação, oração e a contemplação, tornando-se na expressão  de São Gregório Magno, sec VI, “um meio de conhecer o coração de Deus, através de sua Palavra”. Lida assim, e rezada, a Palavra de Deus torna-se uma fonte de renovação, uma “primavera espiritual” na vida cristã, disse o papa Bento XVI.

A voz, o rosto, a casa, o caminho

Chego assim à questão que ficou suspensa, desde o número anterior: Qual a ligação entre as nossas prioridades diocesanas – Família e Juventude – e a “conversão pastoral” que nos levará à renovação da Paróquia e à missão: caberá às famílias deixar-se iluminar pela Palavra renovadora de Deus. A Paróquia aí tem um papel importante:  ajudar as famílias a ouvir a voz de Deus, formar catequistas, através de uma pastoral bíblica que seja uma escola de interpretação da Palavra (DGAE, 62). Ouvir a “voz” de Deus é o primeiro passo apresentado na mensagem final do Sínodo, e explicado por Dom Gianfranco Ravasi, que presidiu a Comissão de elaboração da mensagem final: “A voz de Deus ultrapassa a Biblia escrita”. Ela vai mostrar às famílias o segundo passo: um rosto. Um rosto humano, histórico, o rosto de Jesus Cristo. A Palavra de Deus tem um rosto. É preciso que contemplemos esse rosto, e aprendamos a vê-lo presente entre nós. O terceiro passo: esse rosto humano tem uma casa, essa casa é a Igreja. Famílias que se reúnem ao redor da Palavra de Deus, devem amar a casa de Deus, a Igreja, participar da Eucaristia “em família”, e fazer disso o compromisso mais importante da semana. O diálogo com Deus que começa na Igreja doméstica, se amplia na Igreja comunidade. O quarto e último passo: o caminho. A voz, o rosto, a casa, mostram que a Palavra tem um caminho a seguir, e este caminho é a missão.

 

Dom João Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br

 
 

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