O Ano Sacerdotal, proclamado pelo Papa, começa no próximo dia 19 de junho, na Festa do Coração de Jesus, Dia de Oração pela Santificação dos Sacerdotes.
O Ano Sacerdotal, foi justificado pelo Papa Bento XVI, no dia de seu anúncio, como uma oportunidade para que o povo cristão possa conhecer e compreender, cada vez mais, a importância do sacerdote na Igreja e na sociedade contemporânea, e tem como tema “Fidelidade de Cristo, Fidelidade do Sacerdote”. O dia marcado para o início deste ano especial é 19 de junho, Festa do Sagrado Coração de Jesus, e tem como oportunidade a celebração dos 150 anos da morte de São João Maria Vianney, que será proclamado o padroeiro e modelo dos sacerdotes. Este santo sacerdote viveu na França, num lugarejo chamado Ars, por isso ele ficou conhecido no mundo inteiro como o Cura (Vigário) d’Ars.
Para viver este Ano Sacerdotal temos em nossa diocese razões especiais: tivemos três ordenações sacerdotais em 2009. Uma em fevereiro, do Pe. João Ari, e duas agora em maio, do Pe. Mauro e Pe. Fabiano. Coincide este ano com o Jubileu de Prata do nosso Seminário Diocesano Rainha das Missões que, desde a sua fundação, preparou mais de 50 padres para nossa diocese e para outras tantas dioceses do Brasil. Temos ainda três jubileus sacerdotais que estão sendo preparados para o mês de julho, do Pe. Antônio Kolodzieiski, de General Carneiro, do Pe. Mário Glaab, de União da Vitória, e de seu irmão Frei Bruno Glaab, que é franciscano capuchinho, do Rio Grande do Sul. E para completar esse cenário da celebração do Ano Sacerdotal, a CNBB escolheu como tema da Assembléia dos Bispos, deste ano, a Formação Presbiteral. Esse estudo será publicado em breve e terá uma forte e positiva repercussão em todos os seminários, na preparação dos futuros sacerdotes.
Presbítero, sacerdote e padre são sinônimos?
As três palavras designam a mesma pessoa que recebeu o segundo grau do Sacramento da Ordem. Mas cada uma dessas palavras tem uma conotação própria. Presbítero é a palavra mais antiga: o significado original era de ancião, o mais velho, aquele que tem a sabedoria da idade, para ensinar. Até hoje essa palavra é usada para aquele que recebe o Sacramento da Ordem. Os presbíteros em seu conjunto, formam o “presbitério” da diocese. Como é uma palavra pouco usada na conversa, alguns acham que é do passado ou até pensam que seja pastor de igreja protestante. Há até uma Igreja protestante chamada Presbiteriana. Mas é um termo válido para designar o sacerdote católico, sim. Sacerdote é um termo mais conhecido. Diz respeito à função mais do que à pessoa. Sacerdote é aquele que lida com as coisas sagradas. Não só na tradição bíblica, mas também em outras culturas, o sacerdote sempre teve a função de oferecer sacrifícios a Deus em nome do povo. Jesus conheceu o sacerdócio do Antigo Testamento e o transformou, oferecendo a sua própria vida, tornando-se assim o único Sacerdote da Nova Aliança. E fez de seus apóstolos os sacerdotes do novo povo de Deus. Por isso, também é certo o nome de sacerdote para aqueles que são escolhidos para agir em nome de Cristo. Mas o termo usado com mais freqüência pelo nosso povo é Padre. Padre quer dizer “pai”. É um título que aproxima o ministro de Deus das famílias. É o que acolhe, aconselha, perdoa, encoraja. Como pai ele se dedica de corpo e alma aos seus filhos e filhas. Ele tem uma paternidade espiritual que é reconhecida assim pelo povo e é fonte de muita fecundidade e realização para ele próprio. Um bom padre é uma bênção para a comunidade.
Corpo de homem, coração de Deus
A escolha da festa do Sagrado Coração de Jesus, dia 19 de junho, para o início do Ano Sacerdotal não é casual. O sacerdote é escolhido por Deus e convidado a ter um coração como o dele. São Marcos escreve assim no Evangelho: “Jesus subiu a montanha e chamou aqueles que ele quis, e foram até ele” (Mc 3,13). Assim ele os constituiu para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar o Evangelho. Essa escolha pessoal responde a uma profecia antiga, do tempo do Profeta Jeremias, onde Deus afirma “Eu lhes darei pastores segundo o meu coração” (Jr 3, 15). E assim é o sacerdote, com todas as características humanas, frágil, inseguro, pecador, mas convidado a ser santo, a ter o coração amoroso do Mestre e, como ele, a ter a capacidade de generosamente dar a própria vida como fez Cristo-sacerdote. Não é pouco. De fato não dá para imaginar a Igreja sem os padres. Seu trabalho é necessário e insubstituível. São eles que estão no dia-a-dia em contato com o povo. Hoje temos muitos leigos que realizam as mais diversas tarefas na Igreja como ministros, coordenadores dos movimentos, catequistas, palestrantes, e mesmo os diáconos permanentes, religiosas e irmãos dedicados. Mas os sacerdotes continuam sendo aqueles que fazem a Igreja caminhar. Se são fracos, a Igreja tropeça, se são santos, a Igreja se santifica.
O mundo mudou, os padres também
O mundo tem girado com muita rapidez. Os costumes são outros. As vocações sacerdotais diminuem. Também, antes as famílias tinham dez filhos, ou mais. Hoje têm dois, quanto muito. Não havia muita chance de estudar. Hoje os cursos universitários estão em toda parte. As famílias tinham fé e rezavam muito. Hoje, com a TV, a internet, o celular, as baladas, famílias desagregadas, os modismos, a sexualidade banalizada, carreiras de sucesso, tantos produtos novos para experimentar e consumir, onde é que vai parar a vocação sacerdotal? Tem que ser muito teimoso e corajoso um jovem, pra enfrentar essa enxurrada contrária e experimentar o caminho do sacerdócio. Mas o incrível é que Deus continua chamando. Há jovens dispostos, sim. E preocupa muito a Igreja descobrir que tipo de formação devem ter os jovens que procuram o sacerdócio nesse novo ambiente tão desafiador. O tema da Formação Presbiteral, antes de ser tratado na CNBB, foi estudado longamente pelos Formadores de Seminários. A OSIB (Organização dos Seminários e Institutos do Brasil) vem aperfeiçoando os métodos pedagógicos e os pilares da formação presbiteral. Hoje se propõe uma formação que atenda às dimensões humano-afetiva (amadurecimento da personalidade e equilíbrio pessoal), comunitária (convivência sadia, partilha, sociedade), espiritual (experiência de Deus, conhecimento da Palavra, vida sacramental), intelectual (formação humanística e científica, filosófica e teológica) e pastoral (Igreja, missão, presença na comunidade eclesial). E para os já formados, há necessidade de um constante aperfeiçoamento, estudo, além da “pastoral presbiteral” que deve cuidar da Formação Permanente, desde os mais novos até os de idade mais avançada. Tudo isso tem sido tratado pela Igreja com muita atenção.
Os maus exemplos, o que fazer?
A importância que tem o padre na comunidade, a confiança que nele depositam os leigos, sua formação e liderança espiritual, fazem com que uma desistência, um mau exemplo ou fraqueza de um sacerdote produza um verdadeiro estrago na vida da Igreja. Os Meios de Comunicação exploram o quanto podem, pois escândalos, pedofilia, e coisas desse gênero são fonte de lucro que não se pode imaginar. Por exemplo: Na Assembléia dos Bispos, nós estudamos a Formação Presbiteral com todos essas dimensões citadas acima. Um grande jornal colocou como manchete a notícia: “CNBB discute o celibato dos padres”. Outro exemplo: O Papa vai à África levar uma mensagem de fé, de solidariedade pelos grandes sofrimentos do povo africano. Aparece nos jornais apenas: “Papa condena uso dos preservativos”. Imaginem o interesse que gera o presidente do Paraguai que admitiu ter filhos, os casos de pedofilia, os maus tratos a crianças e outras notícias desse tipo. Pior do que os ateus e laicistas que aproveitam para alfinetar a Igreja, que os incomoda, são aqueles que, mesmo sendo católicos, opinam com veemência, que os padres deviam se casar, para não acontecer isso. E argumentam que os pastores protestantes também se casam... Esquecem que infidelidades e crimes, lamentáveis sem dúvida, acontecem mais ainda nas famílias. E que a maioria dos padres é feliz e fiel. E que esses maus exemplos – só Deus pode julgá-los – não são motivo pra desmerecer o celibato, antes conferem um valor ainda maior para essa grande maioria de sacerdotes que cumpre seus votos com generosidade e alegria, servindo ao Povo de Deus. O que é mais justo é que todo o nosso povo fiel, apóie seus sacerdotes por sua decisão de trilhar o caminho que Cristo escolheu, e assemelhar-se a ele na entrega total de suas vidas.
Espero que cada comunidade paroquial ou capela, neste próximo dia 19 de junho, prepare, para o início do Ano Sacerdotal, um momento especial de oração pela santificação dos sacerdotes. E que durante todo este ano, até junho de 2010, tenhamos muitas ocasiões de conhecer São João Maria Vianney, o sacerdote exemplar, e abrir o entendimento, deixar-nos encantar pelo mistério de amor do Cristo Sacerdote, que outras religiões desconhecem. Mistério que provoca os descrentes e intelectuais mal-informados da mídia, mistério que alimenta e que se expressa na vida e missão dos presbíteros, que são para a Igreja um dom de Deus-amor.
Dom
João
Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br