
Catequese da Catedral participando
da confecção dos tapetes para
a procissão de Corpus Christi
Muitos têm saudade de um tempo – e não faz tanto tempo assim – em que ser cristão, ir na igreja aos domingos, rezar em família, eram obrigação absoluta, uma prioridade com relação aos demais compromissos, sem qualquer questionamento. Nenhuma criança ficava sem batismo, a confissão e a comunhão eram buscadas sempre que o padre aparecia. Morar fora de casa só acontecia casando no religioso, ou indo pro seminário ou convento.
Não adianta ter saudade. Esse tempo em que todos viviam tranquilamente a sua fé não vai voltar mais. O mundo mudou. Pra melhor? Claro que muita coisa melhorou, sim. Há mais conhecimento bíblico e doutrinário, a Liturgia se tornou mais expressiva. Há mais liberdade e consciência da parte de quem permaneceu fiel. Mas há também o que piorou: é cada vez maior o número de famílias que não conseguem transmitir aos filhos a educação religiosa que receberam. Muitos já não participam mais da Eucaristia aos domingos, nem se sentem compromissados com a Igreja. Há um bom número de católicos que não assume a missão de ser “sal e fermento” no mundo, como pede o Evangelho.
O Documento de Aparecida chama isso de “identidade cristã fraca e vulnerável” (DA, 286), e diz que esse fato desafia as nossas comunidades a procurar outras formas de nos aproximar desses cristãos, e ajudá-los a encontrar novamente o sentido da fé. Devemos reconhecer que nas famílias não comprometidas com a Igreja, a iniciação cristã tem sido “pobre ou fragmentada”(DA, 287). Identidade cristã fraca e vulnerável, pobre e fragmentada. Esses quatro adjetivos doem na nossa alma de evangelizadores.
Iniciação cristã
A palavra “iniciação” usada acima se refere à preparação aos sacramentos do Batismo, da Crisma e da Eucaristia. Mas não se trata apenas de um aprendizado, um cursinho ou uma licença para ter acesso aos sacramentos. Iniciação diz respeito aos mistérios da fé. Assim fala Jesus aos discípulos: “A vós é confiado o mistério do Reino dos Céus” (Mt 13,10). Em outra passagem ele agradece ao Pai, “porque escondeu estas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos” (Lc 10,21). E que mistério é esse? É algo fascinante, sublime, fantástico, um segredo que se manifesta apenas aos “iniciados”. E essa revelação não acontece apenas aprendendo doutrinas mas, sobretudo, através de experiências que marcam nossa vida. Esse mistério é o desígnio de Deus de salvação, e no centro desse mistério está Jesus Cristo, Filho de Deus ressuscitado, revelado através do testemunho daqueles que aceitaram o seu chamado e receberam o seu Espírito.
Os primeiros a encontrar Jesus, foram os seus discípulos, que nos deixaram o seu testemunho escrito (os Evangelhos) Depois deles, esse testemunho foi transmitido, de geração em geração, e acompanhado pelo Espírito Santo. Até os dias de hoje, o que nos garantiu a iniciação nos mistérios da fé foram as Escrituras e o testemunho dos que creram. Não há outro caminho. Por isso, quando constatamos que a transmissão da fé, em muitas famílias, se tornou precária, quando vemos cristãos de fraca identidade, atraídos por qualquer proposta religiosa, mesmo sem fundamento, adolescentes e jovens atraídos por comportamentos contrários ao evangelho, precisamos nos confrontar com a alternativa de Aparecida: “Ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo, convidando-as para segui-lo, ou não cumpriremos a nossa missão evangelizadora”(DA, 287). Essa inquietação deve tomar conta de cada paróquia, e da diocese como corpo eclesial.
Iniciação pós-batismal
A iniciação, em sentido estrito, portanto, deveria acontecer antes dos Sacramentos do Batismo, Crisma e Eucaristia. Porém, no contexto atual onde há tantas pessoas que foram batizadas, não suficientemente evangelizados, batizados que não freqüentam mais, e assim não são atingidos pela palavra da Igreja, apresenta-se a necessidade de uma iniciação pós-batismal, uma complementação da iniciação cristã, que as leve a descobrir o mistério da pessoa de Jesus Cristo e os mistérios do Reino. Assim poderão assumir os compromissos que nascem desse relacionamento, que se traduzem nas exigências da moral cristã. Sem um verdadeiro processo de iniciação não se chega a compreender o sentido da vida comunitária e o modo evangélico de viver.
A iniciação “pré” e “pós” sacramental não pode ser tarefa só dos catequistas, mas é tarefa de toda a comunidade. Bispo, sacerdotes, diáconos, ministros, movimentos, pastorais, conselhos, quem não estiver incluído nesta lista, pode se incluir. Já vai avançado o Ano Catequético, aberto solenemente em abril, na nossa Catedral e no país inteiro. Sua proposta é de abrir o sentido da iniciação na vida cristã, para os já batizados, que ainda não estão suficientemente catequizados. E os frutos não serão imediatos. Vão acontecer ao ritmo e à medida do crescimento da nossa consciência. Nem existe um caminho já feito, há idéias germinando. Não existe um roteiro definido. Há experiências, cá e lá, que estão dando frutos. Ainda está à nossa espera a “Missão Continental”, principal fruto da Conferência de Aparecida, que convoca todas as Igrejas a despertar a vocação missionária dos batizados e animar aqueles que se dispuserem a “sair ao encontro das pessoas, das famílias, das comunidades e dos povos, para comunicar e partilhar o dom do encontro com Cristo, que tem preenchido as nossas vidas de ‘sentido’, de verdade e amor, alegria e esperança”. (DA, 548). Algumas pistas foram levantadas na nossa Assembléia Diocesana deste ano, e há comunidades paroquiais arriscando caminhos. Temos que juntar nossas experiências e arriscar passos missionários. Os Conselhos Paroquiais de Ação Evangelizadora, quando se põem diante do Evangelho se debruçam a estudar as Diretrizes e documentos, começam a fazer caminho.
Pistas, por onde começar?
Não se adquire o espírito missionário, esperando que alguém o traga até nós. A primeira dica é “ir”. O verbo que Jesus empregou para acordar os apóstolos, ainda cheios de temor foi esse: “Ide! E fazei meus discípulos”. É preciso ir ao encontro daqueles que se dispõem ao chamado missionário. Com eles, começar a partir de Jesus Cristo. Onde o encontramos? A Escritura é a chave. A Igreja nos pede redescobrir um modo de leitura da Bíblia tão antigo quanto alimentador: a Leitura Orante da Bíblia, que antigamente se chamava de “Lectio Divina”. Voltar, com a Bíblia na mão, às lições de Catequese. O nosso Catecismo da Igreja Católica está ainda muito pouco explorado pelas nossas comunidades. Com ele e outros subsídios se pode preparar um roteiro de formação permanente e progressivo que atenda a todas as idades, desde a infância até a maturidade. A modalidade pode ser de retiros paroquiais, escolas da fé, grupos de estudo e outros. Não esquecer a Liturgia, cuja riqueza de sinais deve ser compreendida e amada. A Liturgia pode unir-se à catequese em novenas, tríduos e seqüências temáticas de pregações e convites para uma participação mais proveitosa dos sacramentos. A Confissão e a Eucaristia bem preparadas e vividas alimentam a fé despertam para a missão.
O que, Quem, Como, Onde
O documento de Aparecida, no capítulo que fala da iniciação cristã e catequese permanente (DA 6.3), para incentivar as comunidades ao questionamento, insiste que respondamos concretamente essas perguntas: o que devemos realizar, quem o fará, como e onde ela deve acontecer. Não é um simples convite, mas uma reiterada convocação (DA, 287).
A catequese que levará ao fortalecimento da identidade cristã, deve ser levada pelos cristãos missionários às famílias. Ministros, catequistas, movimentos, todos são convidados a ir às famílias. É lá que deve acontecer a catequese batismal, a preparação dos noivos, a pastoral bíblica. Há tempos, os nossos Grupos de Reflexão vem sofrendo um desgaste e muitos já não se reúnem mais. Há que se reanimar as famílias para a prática da oração e da leitura bíblica em família, e conseqüentes gestos de caridade fraterna. Formar pequenas comunidades que, segundo o Documento de Aparecida, devem se articular em rede, em verdadeiro arrastão de fé. Não esquecer a devoção a Maria, e o santo rosário, que nunca deixou de ser uma corrente de graças, que une os mais simples e os mais doutos na mesma prece.
Confio aos sacerdotes – enquanto se renovam neste tão oportuno Ano Sacerdotal – a tarefa de ser os primeiros catequistas. Mas não se sintam sozinhos nesta tarefa imensa, urgente, renovadora e desafiadora de evangelizar, pois ser discípulos-missionários é obrigação de todos.
Dom
João
Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br