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19.08.2009 - Fala, Senhor, teus servos escutam!

Vamos acolher a Exortação Pós-Sinodal do Papa Bento XVI, para que a Palavra de Deus se torne, de fato, o nosso alimento diário

Quando a Bíblia é trazida em procissão pelo corredor central da Igreja, por  jovens de túnicas brancas, passos leves e movimentos de dança, com velas e incenso, solenizam a alegria, a gratidão, a acolhida da Palavra de Deus, pela comunidade que crê. Por vezes uma vigorosa salva de palmas mostra o entusiasmo de todos os que vão ouvir a Palavra Divina.

É bonito esse momento, mas nem sempre é bem compreendido. Não é a Biblia que é aplaudida. Não é o livro que acolhemos. A Palavra Encarnada, o Verbo de Deus,  antes de tudo é o próprio Jesus Cristo. O livro da Escritura, por mais importante que seja, não é a Palavra, mas a expressão dela. Homenagear o “escrito”, e não A Palavra, é um engano que tem conseqüências. Uma delas é o costume de retirar frases do livro bíblico e, fora do contexto, usá-las como argumento pra dar autoridade a nossas próprias idéias, pra provar nossas teses, pra condenar os outros, ou até pra acalmar nossos medos com aquela certeza: “Deus disse isso pra você!” No fundo, mesmo sem querer, é uma espécie de idolatria do Livro.

O último Sínodo dos Bispos, sobre “A Palavra de Deus na vida e missão da Igreja”, realizado em outubro passado, procurou, logo de saída, desfazer esse equívoco, afirmando forte: Jesus Cristo é a Palavra Viva de Deus. A Bíblia é o caminho, o acesso, a oportunidade, a linguagem, o instrumento, a porta de passagem para se chegar até A Palavra, que é Cristo vivo, que fala e convive com aqueles que o acolhem no coração. No próximo dia 30 de setembro, Dia da Bíblia, o Papa Bento XVI deverá oferecer ao mundo a chamada “Exortação Pós-Sinodal”, transformando em ensinamento oficial da Igreja aquilo que os Bispos do mundo inteiro refletiram no Sínodo de 2008.

Preparar o terreno

Às nossas comunidades cabe preparar o ambiente para uma boa acolhida a esse novo documento, que deverá ter implicações bem práticas no dia-a-dia da nossa vida de fé. E um bom começo para essa acolhida, para os párocos e coordenações paroquiais, seria uma releitura do grande documento do Vaticano II, a Constituição Dogmática “Dei Verbum”, que já vai completar 45 anos e ainda é pouco conhecida pelo nosso povo de Deus. É um documento pequeno, porém fundamental: foi o gerador de uma nova visão da Sagrada Escritura e sua importância na vida do cristão, um documento que está ainda ressoando na Igreja e produzindo frutos.

Dizer que a “Dei Verbum” é pouco conhecida, não significa que não tenha produzido grande impacto na vida cristã. A insistência desse documento conciliar que diz: “é preciso que os fiéis tenham amplo acesso à Sagrada Escritura” (DV 22) repercutiu nos demais documentos conciliares, mudou a maneira de tratar a Palavra de Deus na Liturgia, plantou a Palavra de Deus na Catequese, incentivou os estudos bíblicos e as novas traduções e edições da Bíblia, mexeu com a formação dos novos sacerdotes, semeou os grupos de reflexão entre os fiéis leigos, colocou, enfim, a Bíblia na mão dos católicos, coisa que antes era só encontrada entre os protestantes. Não é pouco. Mas agora somos chamados a fazer um caminho ainda maior. O passo mais largo pode ser conferido no Documento de Aparecida (DA 248) que diz: “Os discípulos de Jesus desejam alimentar-se com o Pão da Palavra. Daí a importância de uma “pastoral bíblica” entendida como animação bíblica da pastoral, que seja escola de interpretação ou conhecimento da Palavra, de comunhão com Jesus ou oração com a Palavra... uma aproximação à Sagrada Escritura que não seja só intelectual ou instrumental, mas com o coração faminto de ouvir  a Palavra do Senhor”.

Ler com a Igreja

Estamos, pois, diante de uma nova maneira de evangelizar, onde o conhecimento da Escritura é fundamental. Os exemplares da Bíblia se multiplicam nas mãos dos fiéis. Bíblias gastas, sublinhadas com canetinha de marcar frases, são vistas nos ônibus, no hospital, na fila do banco, na mesa de trabalho. Mas devemos aqui ter um cuidado especial para evitar uma leitura equivocada, parcial ou até mesmo errônea da Bíblia: é preciso ler “com” a Igreja, da forma como a Igreja ensina, e do modo como a Palavra de Deus veio construindo o povo de Deus unido até aqui. É importante então que cada paróquia organize não só uma “pastoral bíblica”, entre outras atividades como a Pastoral Familiar, ou Apostolado da Oração ou a Catequese, mas cuidar que todos os fiéis cristãos sentem-se à mesa, nos círculos bíblicos, nos grupos de reflexão, não apenas para receber autorização de batizado ou outra vantagem imediata, mas somente para alimentar-se da Palavra e transformá-la em vida. A Liturgia da Palavra, com homilias bem preparadas pelos sacerdotes,  e partilhada pela comunidade eucarística, será a referência necessária para a leitura em grupos e também para a leitura individual.

A publicação da Exortação Pós-Sinodal, sobre a Palavra de Deus na Vida e Missão da Igreja, deverá nos convidar a abraçar definitivamente a Palavra de Deus e colocá-la no centro de nossa experiência cristã. Iremos passar, na prática, de um catolicismo primordialmente devocional para uma vida cristã decididamente bíblica. Não que as devoções devam diminuir. Elas são boas, e devem permanecer, contudo iluminadas pela Palavra de Deus. Devemos caminhar não apenas para uma Pastoral Bíblica mais organizada, mas, sim, para a iluminação bíblica de toda a ação evangelizadora. Já desde a preparação do Sínodo se pedia que a Palavra de Deus fosse como pão, verdadeiro alimento diário dos fiéis.

Lectio Divina

Vai ser a hora de descobrirmos o sabor desse pão através da Leitura Orante da Bíblia. Já há muito tempo se chamava essa prática com o nome latino de “Lectio Divina”. O que quer dizer isso? Significa que o nosso livro de orações mais importante passa a ser a Bíblia. Tanto na vida pessoal, como nos pequenos encontros de oração bíblica em grupos, chegando à catequese e à liturgia. E para começar a saborear a Palavra de Deus devemos voltar àquela afirmação do início: A Palavra é Cristo vivo. É ele que se esconde nas palavras do texto inspirado. As palavras impressas se tornam como que um convite, um frasco de onde exala o perfume divino de um odor inigualável, uma fonte de graça, um diálogo verdadeiro de amigos que conversam, nós com a nossa vida de cada dia, nossos impasses, nosso entendimento limitado e Ele, a Palavra, com sua sabedoria irresistível e exigente, consoladora e amorosa.

Claro, para que isso aconteça, a Leitura Orante da Bíblia exige método e cuidado. Exige, silêncio interior e partilha, precisa de hora marcada, ambiente adequado. É preciso ter  afinidade com o ensinamento da Igreja, conhecer a interpretação dada pelos Santos Padres, os primeiros intérpretes da Escritura, no seu sentido global, mais que frases isoladas. Os grupos devem cultivar a oração e a vivência do amor cristão de cada dia, pois a Palavra transformada em alimento, deve então transformar-se em amor fraterno. A Palavra viva de Deus – Jesus Cristo – será então a presença constante em nossos lares, na mesa de trabalho, nos nossos grupos de oração bíblica, em saborosos momentos a sós com Deus. Então sim, quando o grupo de jovens trouxer a Bíblia pelo corredor central da Igreja, com “passos leves e movimentos de dança, com velas e incenso”, aplaudiremos com a alma, cheia de alegria, por vermos neste gesto o reconhecimento da Palavra Divina, que nos presenteia com sua preciosa visita.

Vamos viver intensamente e celebrar com alegria este Mês da Bíblia, pois temos muitas riquezas nela a descobrir.

 

Dom João Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br

 
 

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