Estamos falando e ouvindo falar de “discípulos missionários” desde a preparação da Conferência de Aparecida. De lá pra cá já se foram vários anos. A expressão se popularizou após a publicação do documento, onde as duas palavras aparecem juntas num total de 116 vezes, além de outras 128 ocorrências da palavra missão e missionário, mostrando assim a dimensão missionária como grande alavanca de transformação da Igreja atual. Desde maio de 2007, essas palavras foram repetidas em muitas revistas católicas, homilias, reuniões de pastoral e aqui mesmo no “Estrela Matutina”. Ao entrarmos no mês de outubro, mês das missões, cabe talvez perguntar: que mudança trouxe, concretamente, esse insistente convite da Igreja à vida quotidiana das nossas paróquias e dos nossos fiéis cristãos? Não tenho dúvida de que algo mudou na nossa “compreensão missionária”, mas por que razão é tão difícil “partir” em missão, colocar em prática a dimensão missionária tão essencial na vida da Igreja?
A Igreja existe para Evangelizar
O fato é evidente nos evangelhos: Jesus não escolheu discípulos para serví-lo. Nem quis discípulos para que estes “se servissem” da sua palavra e de seus milagres para si próprios. Chamou e formou seus discípulos para enviar em missão. Para irem em seu nome “a toda cidade e lugar para onde ele mesmo devia ir”(Lc 10,1). Por que será, então, que dedicamos o melhor do nosso esforço religioso somente para o louvor, para fruir sua companhia, para o benefício de nós mesmos, deixando a uns poucos a tarefa de evangelizar, de catequizar, de testemunhar, de encontrar aqueles que não o conhecem?
Quais as razões dessa inversão? Cito duas: vivemos ainda na sonolência causada pela ilusão de um catolicismo estatisticamente grande: somos maioria católica, não somos? A segunda razão: a compreensão de que os missionários são os padres. Sem eles nada caminha. Aos leigos cabe santificar a própria vida e rezar para que aumente o número de padres, sempre insuficientes para a grande tarefa da evangelização. Não é assim que pensam muitos?
A conseqüência é que começamos a nos assustar com o número imenso de pessoas que não conhecem a Jesus Cristo, basta olhar ao nosso redor. Começamos a prestar atenção na vida materialista, sem Deus, em que vivem tantos que foram batizados; percebemos que há muita gente, mesmo entre os que freqüentam a igreja, que não têm uma base sólida de doutrina, deixam-se levar pelas opiniões divulgadas na mídia contra a Igreja e contra a fé, são facilmente levados para outras religiões, ou criam a sua própria religião escolhendo o que interessa em cada uma. Percebemos que a nós mesmos faltam argumentos para dialogar com os filhos que não vêem sentido nas nossas práticas religiosas. Não é hora de “partir” – e já estamos atrasados – para aquilo que é essencial ao nosso chamado de discípulos que é a missão de evangelizar? Não precisamos, novamente, encher-nos de coragem e convicção para apresentar a nossa fé como uma alternativa feliz para as pessoas que estão aí desencantadas, abatidas, ou até magoadas com a sua comunidade de fé?
Sem missão, a vida cristã definha
A falta de uma perspectiva missionária em nossa vida cristã vai levando muitos a um certo cansaço de viver só para si mesmos, gastando a herança recebida de uma fé que já foi mais vigorosa, mas agora se vê impotente diante de um mundo que não gosta de compromissos, nem de partilha, prefere o isolamento no individualismo cômodo ao invés da vida comunitária, convida a esgotar-se no trabalho ou oferece uma infinidade de distrações que acabam prevalecendo sobre as exigências da vida religiosa.
Faça, leitor, um auto-exame para verificar se essa anemia cristã está atingindo, ou não, a você e a sua família: o primeiro sintoma é a falta de gosto pela oração. A desculpa pode ser a falta de tempo, as preocupações da vida, mas o fato é que a oração se diluiu. Os sacramentos deixam de ser freqüentes. O compromisso da missa dominical não obriga mais a consciência, a confissão fica escassa ou inexistente, e a desculpa pode ser uma viagem, o fim-de-semana na chácara, ou os padres que não têm tempo pra atender confissões. A anemia da fé pode até ter chegado ao comportamento moral, já não tão correto, mas aí é fácil justificar: hoje é assim mesmo, todo mundo faz.
Para voltar ao antigo fervor, à prática exigente e plena de sentido, que tal redescobrir a urgência de uma missão evangelizadora, primeiro entre nós, dentro da própria comunidade, renovando as estruturas da vida pastoral, da vida litúrgica, da convivência na igreja, mas junto com isso um planejamento comunitário com vistas à missão que nos renove a vida cristã e a prática do amor?
Missão Permanente
Estamos para iniciar a celebração do Sacramento da Crisma nas nossas 25 paróquias. E junto com as crismas iniciaremos também as Visitas Pastorais deste qüinqüênio. A visita pastoral é aquele encontro das comunidades com o bispo diocesano, que deve acontecer ao menos a cada cinco anos, para revigorar os laços da comunidade paroquial com os pastores e aperfeiçoar a vida eclesial. Queremos que essa visita não seja uma formalidade, mas uma ocasião de semear atitudes missionárias permanentes. Vale lembrar que a Renovação Paroquial, meta da Assembléia que fizemos no início deste ano, vem suscitando, nas paróquias que abraçaram essa proposta, um visível afervoramento.
O programa das Visitas Pastorais será divulgado na medida em que forem sendo marcadas, em conformidade com as agendas paroquiais. Mas independente desse momento especial em cada comunidade paroquial, aproveito o mês missionário para sugerir algumas ações que devem estar na pauta dos CPAEs, como pontos fortes de missão permanente, em sintonia com o convite missionário da Igreja:
1)Uma Pastoral Bíblica que seja iluminação e alimento para todos os que participam da vida paroquial. Pode ser o incentivo dos GRPs, pode ser a introdução da Leitura Orante da Bíblia, pode ser algo que mais se ajuste à realidade da própria comunidade, mas que envolva progressivamente a todos na proximidade vital com a Palavra de Deus escrita, expressão viva da Palavra de Deus encarnada, Jesus Cristo.
2)Uma atenção especial para a Catequese com Adultos, a começar por aqueles que se aproximam para os sacramentos da Iniciação, mas indo além: buscar aqueles que estão afastados, que já não participam mais da igreja, porque ninguém mais os convida? A preparação de pais e padrinhos, os pais das crianças e dos jovens que fazem a catequese, a catequese de grupos especiais, e outras iniciativas de aproximação missionária.
3)A Família e a Juventude seguem sendo nossa prioridade diocesana. A evangelização dos jovens lá nos seus ambientes, a preparação remota para o matrimônio, os encontros de noivos, a implantação e ampliação dos movimentos de casais, os casos especiais, casais que vivem sem o sacramento ou em segunda união, que grande campo missionário!
4)Um trabalho sério da pastoral do dízimo, como expressão de co-responsabilidade eclesial, compromisso bíblico e suporte da ação evangelizadora e caritativa.
5)A coragem missionária não é obra nossa, mas é sinal de abertura ao Espírito. É do encontro entusiasmado com Jesus Cristo que deverá brotar a capacidade de enxergar as situações mais desumanas, as carências, as situações de sofrimento e de abandono, tão comuns nesse nosso mundo que vai deixando à beira do caminho “os feridos, os violentados, os semimortos”, à espera do bom samaritano. A ação caritativa é a conseqüência, e a prova definitiva, do amor missionário que encontrou Aquele que deu sua vida para que nós tivéssemos vida em abundância.
Espero, e rezo, para que este mês missionário chegue assim a dimensões muito concretas, que nos façam “partir”, superar fronteiras, ir ao encontro de um futuro que seja de revitalização da nossa fé e do nosso amor cristão. Futuro que não virá ao nosso encontro, nós é que iremos a ele com os nossos pés, pois o futuro das nossas comunidades está dentro do hoje, está dentro de nós. Depende de nós e do nosso compromisso de gerá-lo. Que Deus nos abençoe!
Dom
João
Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br