A Assembléia do Povo de Deus, que reuniu lideranças de todas as dioceses do Paraná de 25 a 27 de setembro, em Maringá, foi um pouco diferente das versões anteriores. Os Bispos, os Coordenadores Diocesanos da Ação Evangelizadora, as coordenações diocesanas das pastorais, os representantes dos movimentos, tiveram como tema de estudos a “Iniciação à Vida Cristã”. Foram convidados para esta Assembléia, também membros da Catequese, representantes da Liturgia e da Pastoral Familiar. Esteve conosco em Maringá o padre salesiano, especialista em Catequese e assessor de da CNBB, Pe. Luis Alves de Lima. Ele ocupou quase o tempo todo da Assembléia tratando da “Iniciação”, assunto que está longe de ser esgotado, pois só agora começa a ser compreendido como itinerário de evangelização apropriado para o tempo atual. Foi esse também o assunto da 3ª Semana Brasileira de Catequese (Itaici – 6 a 11 de outubro passado) e será o tema central da Assembléia dos Bispos, em maio do próximo ano. É preciso então entender o que significa iniciação, e o que tem a ver com a nossa vida cristã e com a evangelização.
Iniciação é o mesmo que Catequese?
“Iniciação” é uma palavra que vem lá dos primórdios da Igreja. Foi muito utilizada nos primeiros séculos. Depois foi se transformando e até ficou esquecida por séculos. Agora retorna ao vocabulário da Igreja. Você logo vai entender o por quê. Perceba a expressão completa: “iniciação à vida cristã”. Dá impressão que iniciação tem a ver com início, começo”. Mas o sentido é mais específico: é um caminho, um itinerário a ser percorrido por alguém para integrar-se a um grupo. No caso da vida cristã, é o caminho a percorrer desde o conhecimento inicial de Jesus Cristo, passando pela catequese e pela preparação aos sacramentos, até a plena participação no Corpo de Cristo. Não é apenas conhecer uma doutrina, mas , de fato, mergulhar no mistério que é Jesus Cristo. A linguagem sacramental, as orações, os símbolos litúrgicos, os mistérios da fé, não são compreensíveis se não forem explicados e vivenciados. São eles que nos conduzem ao encontro com Cristo vivo. Sem essa compreensão não há sintonia, os ritos e mandamentos são como televisão “fora do ar” que só pega chuvisco. Experimente ficar assistindo chuvisco por uma hora. É isso, exagerando um pouco, o que sente um pessoa na missa, quando não a compreende. A iniciação é o aprendizado dessa sintonia com o mistério de Cristo, nosso mestre, modelo e espelho, nosso Deus vivo e amoroso, presente em nós por seu Espírito, que nos liga ao Pai.
Catecumenato, o que é?
Os primeiros cristãos chamavam a iniciação à vida cristã de “catecumenato” e levavam isso muito a sério. Entenderam que esse processo deveria ser feito por etapas: primeiro o anúncio de Jesus Cristo, depois o tempo longo da catequese (levava vários anos), em seguida a preparação próxima aos sacramentos (que era feita na quaresma), os novos cristãos recebiam os sacramentos na Páscoa, e a última etapa era a instrução sobre os ritos e os sacramentos que receberam. Esse tempo de preparação era permeado pelos ritos litúrgicos, e por diversos sinais simbólicos, e provas para garantir que o candidato estava mesmo disposto a mudar de hábitos, e levar uma vida conforme o evangelho. Só depois podia receber os sacramentos. Não é por acaso que os primeiros cristãos, após o batismo, estavam prontos até para enfrentar o martírio, o que aconteceu de fato em muitos casos.
O tempo da “cristandade”
Passados os primeiros séculos, a fé cristã passou a ser predominante, e o catecumenato foi se transformando. A cristandade fez parceria com o Império, tornou-se religião oficial. Tomou carona nas expedições de conquista do mundo, impôs-se, criando leis e dias santificados. Muitos criticam esse tempo porque a Igreja tinha força para se impor. Passou a oferecer os sacramentos com muita intensidade, mas deixou de lado a evangelização. Já não era mais necessária a iniciação, porque todos conheciam os mistérios da fé. Apenas sobrou a catequese das crianças, supondo o conhecimento que recebiam na família. A Liturgia ficou complicada, em latim, e já não estava mais de mãos dadas com a Catequese. Então, das diversas etapas do catecumenato inicial, ficou apenas uma parte, a catequese infantil, que sobreviveu até hoje. O Concílio Vaticano II é que percebeu que a época da cristandade estava acabando. Mais algumas décadas se passaram, diversos documentos renovaram a catequese, mas ficou a percepção de que a catequese infantil era insuficiente. Vieram os “cursinhos” de noivos e de batismo para evangelizar os adultos, sempre vistos como insuficientes e empurrados como exigência para os sacramentos. A Bíblia, pouco conhecida, deixou de ser a fonte de interpretação do mundo. Para resumir, nesta rápida passagem pelo tempo, chegamos aos dias de hoje onde a vida cristã, sem o apoio da “sociedade cristã”, não resiste às investidas das novas religiões, os sonhos de consumo substituem a esperança, a esperteza toma o lugar da virtude, as famílias já não conseguem viver um amor fiel, e as novas gerações “passam” pelos anos da catequese, mas não conhecem e não vivem mais Jesus Cristo, como conhecem e vivem o mundo dos ídolos do esporte ou da tevê. Talvez este resumo seja um tanto caricaturado mas, projetado para o futuro, não deixa de ter os traços de verdadeira tragédia.
Cristãos novos para um novo tempo
Na década de 70 foi publicado um Ritual para iniciação Cristã de Adultos, conhecido pela sigla “RICA”. Era uma versão renovada do antigo catecumenato. Como não foi acompanhado de uma prática pastoral, esse material precioso ficou guardado na gaveta. Agora começou a mostrar a sua importância. O Documento de Aparecida aponta para isso, e os que estão envolvidos com a catequese começam a se movimentar. A proposta de uma redescoberta da “Iniciação à vida cristã” tem um sabor de “igreja dos tempos apostólicos”. A catequese deverá priorizar os adultos, para os que querem de fato conhecer e comprometer-se com Jesus Cristo, e isso leva tempo. Claro, ninguém pensa em abandonar a catequese infantil nem os encontros para quem quer casar ou batizar. Mas está na hora de retornar à catequese com os adultos, do tipo catecumenal. A percepção é a seguinte: não há mais ilusão de que, ensinando bem as crianças em cinco ou seis anos de catequese, elas quando crescerem vão melhorar a vida cristã dos adultos. Pode esquecer. O caminho deve ser inverso: se encontrarmos uma maneira de “iniciar” os adultos no mistério de Cristo, e mergulhá-los na vida cristã para valer, e fizermos o mesmo com as atuais crianças e jovens, à medida em que chegam à vida adulta, então sim, poderemos esperar que as seguintes gerações de crianças terão ambiente para acolher a fé desde o berço. Mas estariam as nossas comunidades, os nossos fiéis cristãos, os nossos padres, os nossos movimentos e pastorais, dispostos a abraçar esses novos impulsos do Espírito?
Revisão e Planejamento
A tarefa da iniciação à vida cristã não cabe só, e não deve ficar somente nas mãos daqueles que hoje coordenam e realizam o trabalho da catequese paroquial. Não é possível pensar um caminho de iniciação que não inclua o clero, a Liturgia, a Pastoral Bíblica, a Pastoral Familiar, os movimentos, a comunidade inteira trabalhando de mãos dadas. Então, aí vai uma sugestão prática: os Conselhos Paroquiais da Ação Evangelizadora (CPAES), movimentos e as atividades pastorais estão, a esta hora, avaliando e planejando as ações da Paróquia. Lembro que, no início deste ano, assumimos o compromisso de renovar as paróquias, numa perspectiva missionária, com alguns pontos práticos como sugestão. Pensando já na Assembléia Diocesana de fevereiro de 2010, penso que será útil avaliar o caminho percorrido, e responder a questões como estas:
1) Que passos foram dados para chegar aos cristãos mais afastados? – Acolher bem os que procuram a paróquia já não é mais suficiente. Como é que os fiéis leigos estão recebendo o convite da Igreja para se tornar discípulos-missionários? Os padres os estão motivando para isso, com o seu próprio exemplo? Que passos daremos no próximo ano na direção proposta de “iniciação à vida cristã” para todos?
2) A Bíblia está mais próxima dos lares cristãos? – Se quisermos renovar a vida cristã, temos que, de novo, partir de Jesus Cristo, nosso modelo e mistério central da nossa fé. É visível que muitos cristãos praticam suas devoções sem conhecer a fundo Jesus Cristo, nosso Salvador. É preciso multiplicar o nosso conhecimento bíblico e facilitar aos fiéis cristãos o uso diário da Bíblia como livro de instrução e oração. A convivência com a Bíblia deve formar nossos juízos a respeito do mundo, nosso comportamento, e não o contrário: os critérios do mundo formar o nosso juízo sobre a Igreja e a nossa conduta. Que iniciativas paroquiais resultaram em fortalecimento da pastoral bíblica, dos grupos de reflexão e estudos bíblicos? O que é possível planejar para o próximo ano?
3) De que forma a paróquia acolhe os adultos que procuram a catequese? – Em algumas comunidades a preparação para os sacramentos é substituída pela exigência de participar, mesmo a contra-gosto dos grupos de reflexão. Outras vezes o “certificado” é dado através de uma conversa com um catequista, sem muito resultado. Como vencer a dificuldade apresentada por adultos que querem o sacramento, mas não querem a vida cristã? Como são preparados os noivos, os pais e padrinhos, as famílias dos catequizandos, os casais que vivem sem o sacramento do matrimônio? A Pastoral Familiar tem se colocado a serviço das famílias que necessitam de evangelização? O que falta para que a preparação aos sacramentos seja uma renovação da vida cristã?
4) A Liturgia e a iniciação à vida cristã permanecem desconectadas? – Em algumas comunidades a equipe de liturgia se confunde com ministério de música, e a catequese tanto das crianças quanto dos adultos se depara com equipes de celebração que não abrem espaço para a participação dos catequizandos. Há na paróquia uma equipe litúrgica atenta aos que estão sendo iniciados (crianças, jovens e adultos) para proporcionar-lhes uma participação ativa e consciente, alegre e envolvente do mistério cristão?
As perguntas são muitas e o espaço é curto. O investimento generoso será recompensado por Deus com uma colheita também farta. Só não se pode “enterrar os talentos no chão” (cf Mt 25, 18) e ficar esperando o Senhor chegar para entregar-lhe de volta do mesmo tamanho. Nós sabemos muito bem a conseqüência disso. Que Deus nos abençoe!
Dom
João
Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br