17.12.2009 - O Verbo armou sua tenda entre Nós!
Este número do Estrela Matutina é o último da primeira década do novo milênio. Há discussão se o milênio começava mesmo no 2000, ou se este ainda era o ultimo ano do milênio passado, mas o que foi comemorado com muitos fogos de artifício e shows e adivinhações dos magos e profetas oportunistas foi o início de 2000, número redondo, que parece mais propenso aos sortilégios e crendices.
Já lá se vão dez anos e ninguém mais chama o milênio de “novo”. Mas, de fato, quanta novidade ele trouxe para nós, pessoalmente, e também para nossa Igreja, e para a nossa fé. Estive passando por todas as paróquias nos últimos meses, algumas mais demoradamente nas Visitas Pastorais, tive encontros com os jovens crismandos, acompanhei a equipe missionária diocesana, e os nossos leigos, sobretudo os que trabalham com as crianças e os jovens mostraram-se apreensivos: nossas cidades se transformam rapidamente, agora têm cursos superiores, o comércio, a informatização, as comunicações dão saltos. Em meio aos bons avanços que facilitam a vida, as práticas religiosas vão sendo rapidamente substituídas pelas imposições do consumo. Até o cenário calmo de cristandade tranqüila que parecia persistir em nossas capelas do interior, distantes dos centros urbanos, rapidamente se transforma. Um catequista citou, como exemplo, a opção educacional pelos núcleos escolares, que tirou as crianças das escolas rurais precárias onde havia as fileiras de crianças de 1ª a 4ª séries. Agora o ônibus as leva para escolas nuclearizadas, com muito mais recursos, com professores bem preparados, televisão e computador. Mas o que elas trazem pra casa, além dos conhecimentos didáticos, são comportamentos bem diferentes do que tinham no meio rural. E além disso, uma idéia de religião difusa e profusa, pois a escola não pode defender nenhuma religião. Então, os “valores” que são ensinados ali não se colam a religião nenhuma pois, para a escola, todas as religiões são iguais, e equiparadas ao mero folclore, que é preciso conhecer, mas que não servem para acreditar e seguir. É o relativismo religioso mais nocivo do que se nada fosse ensinado de religião. E o relativismo encontra professores também fora da escola, na indústria do entretenimento, na pluralidade das idéias, no modismo de desvalorizar as coisas sagradas.
Novo cenário, novas urgências
Se a mudança é rápida e destruidora do ambiente de fé, há também um movimento significativo de novas atitudes religiosas que vale a pena mencionar. Há famílias que começam a entender que a tarefa de transmitir a fé cristã não pode mais ser “terceirizada”. Tem que ser assumida com capricho dentro do ambiente familiar. As dificuldades são muitas, quando pai e mãe trabalham fora, ou quando eles próprios já não têm o conhecimento mais sistemático da doutrina, ou quando os ambientes que freqüentam são francamente desfavoráveis à vida religiosa mais profunda. Nesse contexto é que se ergue a grande necessidade e oportunidade de uma catequese familiar mais intensa, uma urgência missionária que ultrapasse as fronteiras do cômodo “cada um por si e Deus por todos”. Já não é mais possível ser cristão pleno, apenas reservando uma hora pra liturgia dominical, e alguma devoção pessoal. É a hora de sairmos para uma prática pastoral envolvente, perseverante, domiciliar e apostólica, que tenha o nome de equipe missionária paroquial ou pastoral familiar, ou grupos de reflexão permanente, ou iniciação á vida cristã, mas que envolva as famílias, desde os pequenos até os mais idosos, colocando-os em contato com Jesus Cristo e com sua Palavra. É nesse mundo desfavorável que a Palavra precisa ser encarnada.
A encarnação do Verbo é hoje
A chegada do Natal nos coloca diante de um acontecimento histórico – Ele veio, como diz S. João Evangelista, “armar sua tenda” entre nós (Jo 1, 14). Não podemos dizer que Deus escolheu, para tomar nossa carne, o tempo mais propício, o mundo mais calmo e pacato, as condições mais favoráveis para ser aceito e reconhecido. Contrário: Ele não teve lugar pra nascer; ainda no colo da mãe, teve que fugir para sobreviver; gastou tempo e paciência numa discussão indigesta com gente que fazia da religião um cabide para suas hipocrisias; a sua morte não foi acaso ou descuido, mas conseqüência. Isso talvez nos sugira, fortemente, que a encarnação do Verbo, hoje, não haverá de ser diferente. Esse nosso contexto, cada vez mais avesso e espinhoso, tem mais a ver com a encarnação histórica do Verbo do que a calmaria da cristandade que – vai deixar saudade, ao menos na nossa geração – mas não vai voltar mais, não. Pois, essas conquistas do mundo moderno, a ciência e tecnologia, a globalização, o acesso ao conhecimento, a pluralidade religiosa, assim como o atropelamento do ser humano na competição do trabalho, a exposição dos jovens e das crianças aos subprodutos da ganância consumista, a banalização da desonestidade mostrada em áudio e vídeo, a negação de Deus, e a proliferação de crenças extravagantes, vão continuar presentes no nosso quotidiano.
A próxima década será da Palavra
Se os primeiros dez anos do milênio já nos fizeram tomar conhecimento desses desdobramentos do admirável mundo em que vivemos, penso que a resposta da Igreja, como melhor caminho para os próximos anos, será uma aproximação e apropriação, uma maior intimidade e convivência com a Palavra de Deus. Será a marca decisiva da ação evangelizadora. Esse contato com a Palavra deverá ser pessoal e também comunitário. Na Igreja e fora dela. Para todos, não importa a idade, a escolaridade, o gosto pessoal. Aponto aqui alguns caminhos:
- Estará saindo na frente a Paróquia que encontrar maneiras mais criativas de servir essa Palavra em suas celebrações e reuniões, em grupos de leitura e estudo bíblico, em subsídios que facilitem aos fiéis saborear a Palavra em oração. Se não fizer isso, a Paróquia verá minguar suas atividades, embora cheia de boas intenções.
- O Conselho Diocesano e os Conselhos Paroquiais (CDAE e CPAEs) estarão sintonizados com essa urgência se cuidar da iluminação bíblica de todas as pastorais. Poderá incentivar as paróquias, ou setores, para que tenham uma escola de interpretação e leitura orante da Bíblia, preparando leigos para conduzir os grupos de reflexão, os movimentos, a ter mais intimidade com a Palavra. Do contrário, os muitos Grupos de Reflexão Permanentes vão sobrar só como novena de Natal.
- Estará servindo água pura, da fonte, o padre que preparar bem sua homilia sobre a Palavra, partindo da sua leitura orante pessoal, disposto a empregar o seu cuidado pastoral e o seu tempo onde puder ajudar os grupos a ler com proveito a Palavra. Caso contrário o Padre vai falar só para os bancos da igreja.
- Estará investindo bem, e com lucro, o Conselho Econômico da Paróquia que decidir gastar um pouco mais num som de qualidade para que a Palavra seja ouvida com mais conforto e proveito, já que hoje as pessoas costumam ouvir som de qualidade até nos aparelhinhos de bolso. Se não fizer isso, a paróquia estará perdendo fiéis até para o pastor que põe aquela enorme caixa de som lá na calçada.
- Estará afinada com a Palavra a Equipe Litúrgica que preparar os seus leitores com ensaio prévio, e usar uma vestimenta que destaque o leitor, e o faça sentir, ao tomar nas mãos o Livro da Palavra (não aquele folhetinho dobrado e amassado) que está proclamando (e não apenas lendo) a maior boa-notícia que pode existir.
- Estará preparando os cristãos para levar a qualquer ambiente, favorável ou não, o seu testemunho firme e coerente, a comunidade que fizer da Palavra o ingrediente principal da Catequese, especialmente com adultos, prontos a defender a sua fé, independente dos modismos de ocasião.
Há outras idéias e sugestões, peço que as comunidades os encontrem. O importante é que não apenas a palavra escrita, mas a Palavra Encarnada, o Verbo Eterno Jesus Cristo, aquele que “armou a sua tenda” entre nós (cf Jo, 1,14) venha e permaneça conosco.
Feliz e Santo Natal a todos, e uma década de muito empenho, a serviço da Palavra, e do Reino.
Dom
João
Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
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