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24.02.2010 - Servir ao Senhor ou ao Dinheiro
Quando São Francisco de Assis, ainda jovem e confuso com relação a seu futuro, vestiu-se de cavaleiro para ir à guerra, pensando nas glórias e na fama e fortuna, ouviu uma voz que lhe dizia: “Francisco, o que te é mais vantajoso, servir ao Senhor ou ao servo?” Francisco respondeu que era ao Senhor, com certeza, e a voz misteriosa continuou: “Então porque estás indo servir ao servo? Francisco entendeu de pronto, voltou a Assis, mudou de rumo e passou a dedicar-se só a Deus. Mais tarde ele vai expressar com toda a sua vida que só Deus merece ser servido, e vai dizer aos frades: “O Senhor vos enviou ao mundo universo para proclamar por palavras e obras, que não há ninguém Onipotente além dele.”
A lembrança dessa história franciscana me vem à mente quando a Campanha da Fraternidade coloca diante das nossas comunidades, e quer provocar uma reflexão em toda a sociedade, como tema inspirador da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano, a passagem bíblica na qual Jesus afirma que não se pode servir a dois senhores; mais explicitamente não se pode servir a Deus e servir ao dinheiro (Mt 6,24). A expressão “servir ao dinheiro” antecipa uma qualidade que as teorias sociológicas mais recentes atribuem ao dinheiro nas sociedades modernas: o dinheiro deixou de ser um objeto, um valor de referência para facilitar as trocas de bens necessários à vida. Passou a ser uma entidade, um personagem misterioso e atraente, um deus ao qual se sacrificam vidas, não raro um monstro que devora pessoas e sociedades inteiras.
“Só a Ele servirás (Mt 4,10)”
O personagem “dinheiro” travestido em sua fantasia predileta, o “Mercado”, ganha ares de majestade: Os informes econômicos do noticiário não escondem a reverência a esse deus, dizendo: “o Mercado está irritado, ou o Mercado está calmo, está confiante; o Mercado está nervoso com reflexos na bolsa de valores, que sobem ou descem conforme os humores desse poderoso Senhor. Quantos fiéis súditos tem esse deus, em todo o mundo agora globalizado? Impossível contar. Todos nós sofremos as conseqüências dos seus trovões e espirros, até mesmo o pobre agricultor que nem imagina por que razão o seu milho, a sua soja, sempre está com o preço nas alturas quando ele vai plantar, mas despenca quando ele vai vender o que produziu.
A Campanha da Fraternidade nos convida a lidar com esse tema da economia, que tem aspectos técnicos que escapam à analise da maioria das pessoas não especializadas nisso. No entanto, esse tema interfere profundamente na vida de todos nós, na nossa vida comunitária, na vida familiar e social. Pode ser motivo de solidariedade e justiça, e pode nos jogar no pecado, no vício, na ilusão. Temos, então, que tratar com cuidado desse assunto, e tirar conclusões para o nosso comportamento cristão.
A Quaresma é o tempo escolhido, e muito apropriado, para este exercício de reflexão e tomada de posição quanto à proposta da Campanha da Fraternidade. Preparando-nos para a Páscoa do Senhor, temos a oportunidade de rever atitudes mais arraigadas, tanto em nível pessoal como na comunidade, e trabalhar nas celebrações, nos nossos grupos de reflexão, nos encontros e reuniões, nos conselhos e diretorias, temas práticos e necessários, que ampliam o nosso horizonte de fé e tornam a vida comunitária mais fraterna.
Conversão pessoal, familiar e comunitária
O manual da Campanha da Fraternidade Ecumênica, o texto-base, os subsídios litúrgicos e pastorais, as revistas e tvs católicas nos oferecem farto material sobre esse tema para o nosso aprofundamento. Atitudes novas, em âmbito pessoal e comunitário, podem ser assumidas como oportunos sinais de conversão quaresmal. Sugiro aqui alguns assuntos para serem desenvolvidos, nos diversos grupos e pastorais, nesta Quaresma:
- Ler e estudar em grupos o material oferecido pela CF - Não precisamos nos tornar especialistas em economia nem decorar números e estatísticas. Mas é de suma importância conhecer os mecanismos básicos que movem esse nosso mundo onde os fatores econômicos determinam uma parcela tão importante das nossas vidas.
- Identificar nos fatos da vida as situações onde o dinheiro é idolatrado e se torna destruidor - Os noticiários têm sido fartos em mostrar, na vida pública, o dinheiro ligado à corrupção. Que atitude podemos tomar em conjunto, como cidadãos. Como promover os valores da honestidade, da prudência, da temperança no uso dos bens materiais?
- Examinar as práticas da comunidade com relação ao dinheiro – promover a transparência na administração comunitária, incentivar a participação generosa no dízimo como forma fraterna de partilha, mais que as rifas e bingos e venda de bebidas nas festas do Padroeiro. Promover a corresponsabilidade e a unidade do corpo eclesial, na administração dos recursos, entre capelas, paróquia e diocese.
- Identificar e vencer o consumismo – como uma das práticas cada vez mais entranhadas e nocivas da nossa vida atual. A criação de falsas necessidades, a busca incessante de ter, de fruir, de seguir os ditames da propaganda e da moda, distorce os nossos objetivos maiores, nos fazem materialistas e gananciosos, vítimas da obesidade, do colesterol e da preguiça, geram o desperdício que destrói o planeta. Educar-se e educar as novas gerações para uma vida sóbria e solidária, é buscar a sabedoria do evangelho.
- A gestão comunitária do dinheiro começa na família – A falta de dinheiro ou a sobra dele são um perigo para a convivência familiar. Administrar em conjunto, quando os recursos são poucos, planejar em conjunto o atendimento das necessidades familiares, solidifica os laços da convivência e evita desuniões. Como é fácil acontecer a desagregação familiar quando alguém é bem sucedido nos negócios ou na carreira profissional.
- Identificar a doença religiosa chamada “teologia da prosperidade” – É um vício de hoje, mais que em outros tempos, a idéia de buscar a Deus para obter sucesso profissional, e vantagens imediatas. A pregação de muitas seitas é exclusivamente essa: Deus privilegia aqueles que contribuem com a instituição religiosa, garantindo sucesso, saúde, e prosperidade. Jesus quebrou a teologia da prosperidade defendida pelos fariseus e assumiu a linha dos profetas que colocavam no centro da religião amar a Deus servindo ao próximo, especialmente ao mais necessitado. Religião é colocar-se a serviço de Deus e não servir-se de Deus para fins interesseiros.
- Ganância e avareza fazem constantes vítimas – Vivemos sob o mito de que “ganhar na loteria é a forma mais rápida de ser feliz”. A ilusão do ganho fácil induz muita gente ao “golpe do bilhete premiado”, fórmula antiga mas sempre com novas roupagens, largamente utilizada por golpistas, por sociedades secretas que dizem ajudar as pessoas na vida profissional, religiões argentárias, políticos inescrupulosos, e comerciantes desonestos. Como a ganância anda disseminada como pandemia, há muitas vítimas de prontidão para cair nesses golpes.
- Economia de comunhão e não de competição – A competição é o motor do progresso nas sociedades capitalistas. Está na base de todo o sistema econômico vigente. É a competição que cria a acumulação e a miséria. É ela que cria a exclusão de um grande número de pobres que vão sobrando à beira do caminho. É a maior contradição entre o capitalismo e o Evangelho, que prega uma economia de comunhão. Como podemos nós viver o evangelho no mundo atual? Bastaria controlar e mitigar esse veneno ou seria necessário desmontar todo um sistema radicalmente injusto? O socialismo foi uma tentativa de superar a competição, mas criou um monstro ainda maior: o Estado todo poderoso. Parece que não há saída para esse dilema enquanto o “econômico” for mais importante que o ser “humano”.
- Confiança e gratidão, a exemplo de Jesus – O dízimo oferecido à comuunidade, de forma consciente, responsável, condizente com a renda familiar do cristão, é um remédio que nos ajuda a combater a doença do apego, do egoísmo, e da idolatria do dinheiro. Quando toda a família participa desse gesto, ele renova o amor à Igreja e a Deus. Faz brotar dentro do coração de cada um duas atitudes que são muito claras em Jesus, com relação ao Pai: a primeira é a Confiança: “Olhai os lírios do campo...”. Se o Pai cuida de nós, porque temeríamos oferecer a ele o nosso dízimo? A segunda é a gratidão: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra...” Se tudo o que temos vem das mãos de Deus, não é esta uma forma de agradecer a ele, por tudo o que ele nos dá?
- A cultura da solidariedade – Em época de catástrofe a ajuda humanitária é abundante. “O triste é que, depois, o Haiti voltará à sua pobreza habitual”, prescreveu um jornalista num dos grandes jornais. Nas datas mais significativas, por exemplo, como no Natal, as creches e asilos não têm mais estantes para guardar os donativos, que durante o ano todo vão ser escassos... Falta-nos a constância em ser solidários. A gente é mais feliz em dar que em receber. Apesar dos belos exemplos momentâneos, preferimos a segurança de ter e guardar. Nossas igrejas são especialistas em liturgias e novenas, mas poucas têm uma preocupação social permanente, uma obra caritativa condizente com o tamanho da comunidade de fé. Não é hora de termos uma “Caritas Diocesana” reunindo os projetos sociais realizados pelas paróquias? O que, de fato, ensinamos aos jovens e ás crianças quanto à generosidade e a partilha?
Caros irmãos e amigos, são muitos os temas, bons e práticos, que podemos desentranhar desse amplo material que nos é dado refletir nestes tempos de Campanha da Fraternidade. Espero que cada comunidade, cada movimento ou grupo descubra, no apelo da Igreja, uma atitude nova de cristãos, que se preparam para ressuscitar com Cristo para uma vida nova.
Dom
João
Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br
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