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30.04.2010 – Pão da Unidade

Em maio próximo, dias 13 a 16, nossos corações estarão em Brasília. A Capital da República, que todo dia é notícia, e nem sem sempre por motivos nobres e elevados, será, nesses dias, para todos os católicos brasileiros, a Capital da Fé. Realiza-se lá o 16º Congresso Eucarístico Nacional, ocasião de renovar em todos nós, que amamos a Eucaristia, nosso sentimento de gratidão ao Senhor por esse imprescindível alimento. É também ocasião de testemunhar publicamente que, na Eucaristia, está o Deus vivo que adoramos. Um grande evento que reúne milhares de fiéis, e que, hoje especialmente, através dos meios de comunicação, reúne todos os católicos ao redor do mesmo pão, e é também uma manifestação de unidade. Somos um só corpo, embora provenientes de tantas realidades diferentes.

Recordando o valor da Eucaristia

Os Congressos Eucarísticos tiveram sua origem na França, em meados do século 19. No Brasil, o primeiro Congresso aconteceu na Bahia, em 1933. A cada cinco anos, esse grande acontecimento é organizado nacionalmente. E, de fato, é preciso sempre de novo recordar a importância que tem o sacramento da Eucaristia para a vida cristã, pois o que se vê, de uma geração à outra, é um desconhecimento cada vez mais generalizado, displicência e distração de uns, fanatismo e desmaios de outros, ausência da santa missa por motivos fúteis, participação eucarística sem compromisso de vida. São fatos, infelizmente, não muito raros. O Congresso acontece lá em Brasília, mas é importante que cada comunidade acompanhe, escute, estude e divulgue os textos de catequese eucarística que mostrem a Eucaristia como o nosso maior patrimônio. Ela é a força capaz de influir na existência quotidiana do cristão, levando-o a ser testemunha de uma vida nova em seu ambiente de trabalho, na família e na sociedade. Cristo age de tal modo no cristão que participa conscientemente da Eucaristia, que ele vai aos poucos se transformando naquele que o alimenta. Quando o mistério eucarístico se dilui de tal maneira que nos julgamos aptos a receber a comunhão sem a mínima preparação, sem estar em estado de graça (veja-se a quase ausência do sacramento da Confissão, feita como rotina anual, quando muito) nesse caso pouca coisa sobra de vida cristã.

Alimento da Missão

O tema do 16º Congresso Eucarístico Nacional é assim enunciado: “Eucaristia, Pão da Unidade dos Discípulos Missionários”. E o lema: “Fica conosco, Senhor”. Essas palavras motivadoras ligam o Congresso a toda essa efervescência missionária despertada pela Conferência de Aparecida, além de juntar-se ao caminho de Emaús, proposto pelo Ano Catequético, celebrado no ano passado. Em outras palavras, o Congresso não quer apenas despertar uma piedade eucarística fora do tempo e do espaço eclesial que estamos vivendo. A Igreja vem martelando nos nossos ouvidos, e injetando na nossa ação evangelizadora a nova mentalidade de discípulos conscientes, atentos à Palavra do Mestre, dispostos a investir tempo e recursos no aprendizado mais profundo dos conteúdos da fé, e capazes de sair a campo, como missionários solícitos, insistentes na pregação e resistentes às intempéries da cultura descristianizada do mundo atual. O apelo para uma “iniciação à vida cristã” que permita uma experiência viva de fé e encontro com Cristo Ressuscitado está presente no lema do Congresso. Sem a Eucaristia, celebrada com vigor espiritual em nossas comunidades, todo o esforço evangelizador se evapora, vira fumaça, simples enfeite de uma religião de tradição, de cerimônias sem nexo com a vida, fadada a desaparecer assim que passar essa geração que ainda freqüenta as novenas e faz promessas para garantir o apoio divino nas necessidades.

Qualificar a vida litúrgica

Com intuição providencial, a nossa Assembléia Diocesana elegeu como proposta de trabalho para este ano, em todas as comunidades a qualificação da vida litúrgica. A expressão é genérica e talvez não tenhamos tido tempo na Assembléia para dar um conteúdo mais explicito a essa “qualificação”. Entendo que a proposta deve ser acolhida pelas Equipes Litúrgicas e pelos Conselhos Paroquiais como uma provocação, no bom sentido. Pro-vocar significa “chamar para frente”. Significa convocar para um aperfeiçoamento, para uma renovação. O Congresso Eucarístico Nacional pode ser um ponto de apoio para esta provocação. Ele está nos dizendo que um bom trabalho litúrgico não é apenas ter uma equipe afinada de canto, nem somente o uso de uma vestimenta bordada e bonita para os ministros e leitores. Também isso é importante, claro. Mas não basta. O objetivo maior é transformar-se pela Eucaristia, alimentar-se de Cristo, pão da unidade que cicatriza as feridas da vida eclesial, alimento que robustece os pés missionários para caminhar, de casa em casa; remédio para as mãos que se unem para louvar, mas não se abrem pra repartir.

Propostas e questionamentos

O mistério eucarístico é um «dom demasiado grande para suportar ambigüidades e reduções», disse o papa João Paulo II, e assim o repetiu Bento XVI aos bispos em visita Ad Limina, neste último dia 15 de abril. Acrescentou o papa que “A Igreja vive desta presença e tem como razão de ser e existir ampliar esta presença ao mundo inteiro”. Os Conselhos Paroquiais, Movimentos e Pastorais, Ministros, Catequistas e lideranças das Comunidades, devem buscar meios e modos para realizar o que foi pedido pela Assembléia Diocesana, quanto à qualificação da vida litúrgica da Diocese e das comunidades. Proponho, então,  para toda a Diocese, uma revisão eucarística que poderia ter como pontos de reflexão:

  1. Como estão as nossas celebrações na matriz e comunidades? O que pode ser melhorado para maior participação dos fiéis? Os fiéis vivem um verdadeiro encontro com Cristo, alimento da vida cristã? Olhando com franqueza, existe de fato unidade entre os diversos grupos, movimentos, pastorais e serviços da comunidade? As famílias se alimentam da eucaristia todos os domingos? Há sinais de abandono da eucaristia dominical, sobretudo entre as gerações mais novas? O que fazer para atraí-las? Que se pode fazer para atrair os que não vivem o domingo como Dia do Senhor, Dia da Eucaristia?
  2. Como vivem as paróquias e comunidades a espiritualidade eucarística fora da missa? Há horários definidos para a Adoração ao Santíssimo Sacramento? A participação é de toda a comunidade ou apenas ao gosto de um grupo ou movimento? Há conhecimento e observância das normas litúrgicas? Há respeito e silêncio, acolhida e adoração, que deixe o Senhor falar?
  3. O ambiente da eucaristia fala sobre a importância que damos a esse Sacramento. Como estão ornamentadas as nossas igrejas? Não há, por vezes, , cartazes rasgados, folhetos mutilados,  flores artificiais já empoeiradas, imagens quebradas, sacristias desarrumadas e outros detalhes que denotam algum descaso? Como estão os vasos sagrados, as alfaias? Há investimento nessa área? Jesus Eucarístico não merece?
  4. Algumas atitudes que podem ser melhoradas: em algumas comunidades, o povo costuma sentar-se logo após a apresentação do pão eucarístico, antes da comunhão. A liturgia pede que os fiéis permaneçam em pé até receberem a comunhão, voltando depois para seus lugares em atitude de adoração. Outra: preencher sofregamente todo o tempo da ação de graças, com cantos e falas, sem deixar espaço para o silêncio e a meditação pessoal que são previstos na liturgia. E ainda: quem distribui a eucaristia e realiza a purificação do cálice e prepara as âmbulas para serem levadas ao sacrário é sempre o padre ou o diácono. Os ministros podem ajudar, mas não realizar sozinhos. E ainda: a oração depois da comunhão conclui esse momento, só depois da oração se fazem avisos e comentários.
  5. Como são tratadas as crianças que ainda não fizeram a primeira eucaristia?  Como fazer para que participem ativamente, mesmo se ainda não recebem a comunhão? Participam, ou só aparecem só há hora das figurinhas? Os adultos são orientados para cuidar que elas participem? Elas são introduzidas na “comunhão espiritual” com freqüência, durante a catequese? A confissão lhes é ensinada quase sempre como um passo para a primeira comunhão. Depois só na crisma e quem sabe antes do casamento. Não seria o caso de realizar algumas vezes a confissão, primeiro como exame de consciência e ato de contrição, depois como confissão várias vezes, até chegar a primeira comunhão?
  6. Por falar em confissões, podem as comunidades contar com os sacerdotes sempre antes das missas, ou com horários bem definidos, e com uma catequese para que esse sacramento, tão precioso, não se torne apenas rotina de semana santa?
  7. A equipe litúrgica paroquial deve reunir-se com antecedência, examinar os textos, as festas, o tempo litúrgico e estabelecer aquilo que as equipes de celebração realizarão na liturgia. Toda a comunidade se envolve com a liturgia, ou são sempre os mesmos? Há ainda improvisação e remendos de última hora?
  8.  Ainda não  conseguimos uma equipe litúrgica diocesana, como a Assembléia sugeriu.  Quais seriam as funções de uma equipe diocesana? O que fazer para que aconteça?
  9. O Material litúrgico publicado a cada mês no Estrela Matutina é utilizado adequadamente? Como utilizar melhor esse bom material litúrgico? Há sugestões para melhorá-lo?
  10. Por fim, quero lembrar a proximidade da Festa de Corpus Christi. É a grande festa do Pão da Unidade. Como poderemos preparar melhor essa festa para que esteja em sintonia com o Congresso Eucarístico? Seria oportuno juntar paróquias que são vizinhas  para preparar juntos esse evento tão importante?

Os dez pontos elencados podem ser esses, ou outros. Cada comunidade selecione e acrescente o que convier. Algumas já estão colocando em prática os pontos sugeridos. Mas ninguém poderá deixar passar esse momento forte do 16º Congresso Eucarístico, sem fazer uma boa revisão eucarística na sua comunidade. Se todos responderem a este apelo, trocando idéias e vivendo intensamente esse tempo de tantas graças, por certo o Pão da Unidade, Jesus Cristo estará, ele próprio, construindo conosco a unidade da Igreja diocesana.

Dom João Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br

 
 

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