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01.09.2010 - Crianças e adolescentes na igreja

Que espaço temos dado àqueles que são o nosso futuro?

Entre os meses de outubro e dezembro, todos os anos, quase três mil adolescentes e jovens completam o quinto ano de catequese paroquial em nossa diocese. Esse número é expressivo e representa um investimento de grande monta, não só de recursos da comunidade, mas também, e, sobretudo, o investimento de dedicação, carinho e competência, distribuídos nos cinco anos de catequese, por cerca de 2.500 catequistas e mais de 15 mil crianças, adolescentes e jovens.

Apesar de tamanho investimento, passada a Crisma, se contamos os adolescentes que perseveram na igreja, podemos ficar desconsolados. Não só eles desaparecem dos bancos da igreja, como seus conhecimentos religiosos se evaporam, e vão dar mais importância ao consumo e à moda, quando não ingressam nas estatísticas dos maus comportamentos da juventude, que gasta seus melhores anos nas baladas, no abuso das bebidas e do fumo, nos namoros irresponsáveis, na violência e na morte prematura.

Faltam espaços jovens na Igreja

Os Catequistas – que também são pais e mães, muitas vezes – ao se aproximar das famílias dos catequizandos, percebem a preocupação dos pais: levar os filhos pra igreja à força, nem pensar. Através de negociação, é cada vez mais difícil. Deixar para ir quando tiverem vontade? A vontade não virá. O que tem acontecido é que cada vez mais cedo morre o diálogo, entra em cena a desobediência, a crítica à Igreja nos moldes da mídia, em alguns casos até a mudança de religião, como forma de expressar sua recusa às preferências dos pais.

Não vamos culpar, de imediato, essa irrefreável mudança de hábitos a que estamos assistindo no mundo inteiro, nem buscar culpados na TV, nas más companhias da escola, na sedução dos bens materiais a que temos acesso hoje, com o crescimento econômico dos últimos anos. Tudo isso é um fato. Mas, o que salta aos olhos, é que temos, para essa faixa de idade nas nossas igrejas, pouca ou nenhuma oferta de atividades que lhes interessem, que falem a sua linguagem, que ofereça ao menos o espaço da igreja, com conteúdos que lhes sejam atraentes.

Posso estar sendo injusto com uma ou outra comunidade paroquial onde, fora da catequese sacramental, as crianças e adolescentes contam com uma atenção especial dos párocos, ou de pais e paroquianos habilidosos, dispostos a empenhar tempo e dedicação a atividades como a dos Coroinhas e Acólitos, à Infância e Adolescência Missionária, à catequese de perseverança de diversos formatos. Há o RADinho, o Mini-TLC,  o Sementes de Alegria que por certo encantam os participantes, numa experiência de vida comunitária e de oração. Mas, a bem da verdade, essas boas iniciativas atingem poucas crianças e jovens. A rapidez com que as crianças crescem e passam de uma fase a outra, dificulta a formação de lideranças. As atividades escolares e extra-escolares são muitas, o que torna difícil encontrar tempo e disposição para atividades na igreja. Não podemos negar nada disso. Mas, precisamos encontrar caminhos alternativos, e mais abrangentes, pois, só vamos colher no futuro aquilo que hoje tivermos plantado.
 
Boas idéias, muito trabalho

Não há como preencher esse vazio de atividades, entre a catequese e a vida de cristãos adultos, sem investir em pessoas, recursos materiais e muito, muito trabalho. Mas nossas crianças merecem. Não lhes podemos oferecer “qualquer coisa”, pois a oferta que elas encontram fora da igreja, desde os caríssimos videogames, os convites de outras religiões e  até mesmo o engano das drogas, é muitíssimo atraente. Uma das nossas paróquias – São Cristóvão e N.Sra Salette – resolveu investir num espaço para crianças e adolescentes, colocando à disposição, em horários determinados, seu salão, quadra de esportes e salas. Fez parcerias com empresas para garantir um investimento em jogos de mesa, computadores, videogames e lanche. Investiu no treinamento de assessores, adultos e jovens para monitorar as atividades por faixa etária. Juntaram a tudo isso os diálogos sobre assuntos diversos (drogas, namoro, espiritualidade, valores humanos). E resultou daí um projeto que tem o nome de “Clube AMM”, com mais de uma centena de participantes semanalmente. Imagino que iniciativas como essas dão, de fato, muito trabalho, fazem barulho e gastam material de limpeza. Mas os benefícios no presente e no futuro deverão ser compensadores, com certeza. Poderíamos imaginar projetos semelhantes, com características próprias a cada realidade, atraindo crianças e jovens em todas as nossas paróquias? E o que se pode imaginar para as crianças e adolescentes das comunidades do interior?

Infância e Adolescência Missionária

Em oito das nossas paróquias já está presente a IAM – Infância e Adolescência Missionária. É uma experiência bonita, e pode se tornar ainda mais, se for assumida com empenho pelas nossas comunidades, não como uma concorrente da catequese eucarística, que de fato não é, mas como possibilidade de uma ação missionária com as crianças que tem continuidade na adolescência e, depois, na juventude missionária. E está em sintonia com toda a efervescência missionária que a Igreja nos convida a abraçar. Sem deixar de lado outras formas  de atrativo para as crianças, eu gostaria de recomendar de modo especial aos nossos Conselhos Paroquiais da Ação Evangelizadora (CPAES), que conheçam a IAM e sua proposta: “Criança evangelizando Criança”. Eu falo em “conhecer” porque, embora seja tão antiga (a fundação é de 1843), pouca gente entre nós conhece a sua metodologia, seus conteúdos e sua dinâmica. Para conhecer e iniciar na paróquia um grupo de IAM é muito simples: Bastam quatro ou cinco pessoas bem entrosadas na comunidade (crianças ou jovens, um adulto, para dar apoio). Podem começar por uma visita a um grupo já existente de IAM (temos IAM nas Paróquias de Rio Azul, Rebouças, Paula Freitas, Sagrada Família, São Judas, N.S. de Fátima, São Sebastião e São Cristóvão). Ou podem entrar em contato com as Irmãs Mensageiras do Amor Divino (especialmente Ir. Gilene –(42.3522-1512). Teremos, em breve, encontros nos Setores, com os grupos que queiram implantar IAM. Em novembro, deveremos ter um encontro chamado EFAIM (Encontro de Formação para Assessores da Infância Missionária). Vamos conhecer o ELMI (Encontro de Líderes Missionários Infantis), da metodologia da IAM.
Peço então aos Párocos e aos Conselhos, neste mês, um exame sério dos serviços que prestamos às crianças e adolescentes. Sugiro que o façam, seguindo estas pistas:

  1.  É possível reunir numa mesa de debate a Coordenação Paroquial da Catequese, A Pastoral Familiar, os jovens, os Movimentos Familiares, Professores católicos do Ensino Fundamental e outros, e juntos encontrar um caminho para atrair as crianças e adolescentes para que tenham uma vida eclesial mais intensa e atrativa? Refiro-me a esses grupos paroquiais, porque não é possível imaginar uma ação dessa importância nas mãos de uma ou duas pessoas isoladas. É o coração da Comunidade que deve abraçar as crianças.

  2. Podemos incentivar crianças e adolescentes, e também ajudá-los, se necessário, para que participem nos próximos RADinhos, Sementes, Mini-TLC para que façam essa experiência e voltem animados para o serviço paroquial junto a outras crianças e jovens? Como motivá-los?  Sua paróquia tem coroinhas, meninos e meninas, em todas as comunidades? É simples: é só levar um primeiro grupo para ensaiar noutra paróquia, onde haja coroinhas. Depois, com um pouco de paciência e orientação, uns ensinam os outros.

  3. Os crismandos deste ano talvez sejam os próximos a “debandar” após a Crisma. Sugiro que cada paróquia programe ao menos uma atividade (encontro, passeio, esporte, filme com pipoca, visita a outra paróquia, gincana...) com eles para este ano. Quem sabe possam programar algo para as férias?

  4. Escolher um pequeno grupo para implantar a IAM, ao menos duas pessoas, para participar dos encontros de setor e mais tarde do EFAIM, como expliquei acima. Se a Paróquia já tem IAM, escolher alguns deles para uma tarefa missionária: ir às paróquias vizinhas aos domingos, para explicar o que é a IAM e motivar aquelas paróquias a iniciar um grupo.

  5. As escolas podem ser um campo de aproximação das crianças com o Evangelho. A nossa Assembléia Diocesana deste ano sugeriu isso, embora muitas vezes seja difícil falar diretamente de religião lá. Mas é possível uma presença alegre, amiga e humana que mostre o caminho do bem às crianças e adolescentes.

Tenho certeza de que todas essas idéias darão muito trabalho. Têm custos. Quem sabe tragam alguma dor de cabeça. Mas, quem disse que a gente escolheu a fé cristã porque o mundo já estava salvo? Ou, se queremos um argumento mais definitivo: se não recuperamos as crianças e jovens para Cristo, em poucas dezenas de anos talvez não tenhamos mais trabalho nenhum. As paredes da igreja não fazem algazarra, não sujam, não quebram vasos, não precisam de mais cuidado que uma vassoura para tirar as teias de aranha... Não é essa a paz que queremos.

Dom João Bosco Barbosa de Souza, ofm
Bispo Diocesano de União da Vitória
dombosco@dioceseunivitoria.org.br

 
 

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