Igreja Católica Apostólica Romana

Sonhar é preciso

Pe. Mário Fernando Glaab

Ninguém é dispensado de sonhar. Aliás, todos querem e necessitam de noites tranquilas para dormir e, quem sabe, também sonhar. Os sonhos, caracterizados pela esperança, não podem morrer, pois ainda não são. Só morre o que é. Ou melhor, como afirma Leonardo Boff, “é da natureza do sonho sempre ressuscitar”, já que vai além do momento presente. A vida, no entanto, traz situações nas quais parece que todos os sonhos desaparecem. Surgem momentos em que a noite fica escura, mas o sono não vem. As preocupações, as dificuldades e angústias são tantas que impedem sonhar; levam, talvez, a pesadelos e sustos terríveis que se procura afastar de todo jeito.

Geralmente situações angustiosas que atingem grande parte das pessoas de nossa sociedade consumista e imediatista são fruto da ganância e da intolerância com o outro. O princípio do quem pode mais chora menos, ou mais atualizado, quem pode mais chora mais ainda traz consigo consequências nefastas. Quando as pessoas se dão conta que não podem abarcar o mundo todo sem passar por cima dos outros, pisando-os e esmagando-os, não têm o menor escrúpulo em fazê-lo. Se preciso for, o outro que se dane! Dizem que essa é a lei da sobrevivência nesse salve-se quem puder. Valores éticos e cristãos não valem para essas situações concretas. A ganância tem seus próprios valores.

O mais difícil para tal mentalidade é colocar-se do outro lado: do lado da vítima. A vítima não interessa. Ela está aí para isso mesmo, e deve continuar sempre como vítima. É muito bom para a sociedade que as vítimas sejam privadas de todos os sonhos; que fiquem com a sua dura realidade; que não tenham tempo para dormir e sonhar. As atividades e preocupações das vítimas devem ser tantas que as prendam ao presente e, que somente esperem seu próprio fim, passando e morrendo com elas. Os sonhos são perigosos demais, pois transportam os sonhadores para o futuro esperançoso. Existem drogas que mantêm as pessoas acordadas para não sonharem, e outras que as fazem dormir tão profundamente que igualmente as impedem de sonhar. É, no entanto, possível arrancar por completo do outro seu direito de sonhar?

Parece, à primeira vista, que sim. Todavia, quando se aprofunda a questão, vê-se claro que apesar de todos os obstáculos, ainda que tudo pareça perdido, sonhar continua possível. Nós cristãos, olhando para Jesus de Nazaré, aquele que foi o grande sonhador, aquele que veio para inaugurar um tempo novo no qual todos tivessem acesso aos bens que Deus colocou à disposição de seus filhos e filhas, somos levados a encontrar outra saída. Humanamente falando, os sonhos de Jesus foram diminuindo e cada vez mais constatava que o Reino de Deus – seu Pai – não encontrava eco nos corações das pessoas, mas era rejeitado abertamente. Até mesmo seus amigos íntimos não estavam em condições de compreendê-lo e assumir a sua causa. No fim de sua longa e insistente caminhada, quando já pendia da cruz, Jesus se dá conta de que Deus não vai interferir nem salvar seu sonho. Os sonhos acabaram! De fato, Jesus pregado na cruz não sonha mais da forma que sonhava até então. Passa por enorme frustração e consequente transformação. Agora o seu sonho é somente o sonho de seu Pai, que parece tão longe, mas que ele, por ser o Filho, não deixa se afastar definitivamente. O sonho de Jesus, purificado de tudo, é agora somente o sonho do Pai: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46); com este sonho o Pai o deixa dormir. Esse é o sono que dá realidade para o verdadeiro sonho de Jesus de Nazaré: o Reino de Deus anunciado e instaurado em todo o mundo pela doação total. A partir desse momento o Reino está presente e atuante com todos os que o seguem no exemplo de doação. Quem como Jesus de Nazaré se despoja de seus sonhos particulares para sonhar com o projeto do Pai que é vida e salvação para todos, pode voltar a sonhar. Sonhar verdadeiramente. Esse sonho, do qual participam todos os pobres e humildes de coração, é a Esperança colocada nos corações dos discípulos de Jesus. Deixemos que morra em nós a segurança das riquezas, as glórias das honras e as importâncias de nossos títulos. Lembremos, como diz sabiamente L. Boff, que “só morre o que é; o que ainda não é não pode morrer. A esperança é aquilo que ainda não é, mas se faz presente pelo desejo e é antecipado pelos anelos do coração”, isto é, naquele que pela fé procura seguir a Jesus de Nazaré com confiança e compromisso.

Sonhar é preciso. Essa é a mensagem que a fé cristã oferece ao homem de hoje, como de todos os tempos. Não importa que as situações possam ser as mais adversas. Mesmo que os poderosos não queiram deixar tempo para os fracos sonhar, ainda assim, é possível. Caso não se possa sonhar com sono tranquilo, que se sonhe durante o trabalho, nos momentos de dor, de angústia e de morte. Morrer sonhando! Foi assim que Jesus morreu. A esperança que nos move é mais forte do que todos os que privam e que matam, do que todos os que querem tirar o direito de sonhar. Mesmo que nos privem de tudo que construímos até agora, arranquem todos os nossos apoios, a esperança não nos pode ser tirada, pois, Aquele que morreu desesperado – humanamente falando –, ressuscitou! Todo aquele que morrer “desesperado” como ele morreu, com ele ressuscitará. Sonhemos muito; sonhemos os sonhos do Reino de justiça, de igualdade e de dignidade. Sonhemos o sonho do Pai, revelado por Jesus de Nazaré e confirmado pelo Espírito de Amor derramado em nossos corações.

(Obs.: As citações de L. Boff são dos livros Cristianismo: o mínimo do mínimo e O Pai-nosso, ambos da Ed. Vozes).

 

 

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