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A vida de comunidade – O nosso pão de cada dia

28/12/2017
in Igreja no Brasil
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“É preciso que tenhamos alguma semelhança para nos entendermos, mas é preciso que sejamos diferentes para nos amarmos” (Paul Geraldy).

A confiança – A vida comunitária é marcada pela alegria de viver a unidade na diversidade e com espírito da verdade. É a capacidade de contemplar o mistério de Deus na outra pessoa que convive ao meu lado. É superar os defeitos para chegar às virtudes do coração. A vivência comunitária alimenta-se da confiança mútua. É uma conquista de cada dia. A confiança supõe maturidade humana e espiritual. Trair a confiança que alguém partilhou comigo é romper o elo da verdadeira amizade. A marca da desconfiança é dolorida e custa muito tempo para sarar.

As responsabilidades – É próprio de uma vivência comunitária determinar as funções de cada membro, de acordo com suas capacidades. Tais funções não deveriam ser competitivas, mas serviço para o bem comum. Quem é responsável sabe também respeitar as competências do outro. Porém, é necessário saber com clareza onde começa e onde termina a responsabilidade de cada pessoa. Determinar os limites no campo de trabalho, evita ressentimentos e mágoas, que tanto prejudicam a vida fraterna. É o Espírito Santo que conduz a comunidade, mesmo em meio aos conflitos. Viver em comunidade é sair do anonimato para deixar-se conhecer, colocando seus dons a serviço. A comunidade é o lugar do crescimento, mas também do desafio constante. É o nosso pão de cada dia.

A grandeza de alma – A vida comunitária, por sua natureza evangélica, exige a força e a capacidade de amar. É um amor autêntico. Onde há honestidade no agir, no falar e nas avaliações, aí a comunidade encontra sua razão de existir e conviver na mesma casa. A vida é sempre criativa e abertura ao diferente. Quem se fecha no seu egoísmo, está morrendo aos poucos. Por isso, a vida comunitária é chamada a renovar-se constantemente. O que falta nas comunidades são os pequenos toques de amor e doação, isto é, as delicadezas da alma. São João da Cruz nos diz: – “O amor não cansa e nem se cansa”. As delicadezas não são deveres a cumprir, mas estrelas de amor que brilham nos momentos de escuridão e desânimo. A delicadeza gera a confiança e esta, por sua vez, traz alegria ao coração. Faz muito bem encontrar uma pessoa com grandeza de alma.

Os Talentos – É necessário tratar cada pessoa, segundo a sua idade, as condições de saúde, a experiência adquirida ao longo da vida, as aptidões e iniciativas pessoais. Na vida comunitária não se pode nivelar ninguém. Cada pessoa tem dentro de si um potencial de criatividade e valores. É preciso espaço e oportunidade para que as sementes germinem. No mistério humano não existe “xerox”, cada pessoa é única e irrepetível. O elogio, quando é sincero, estimula e torna-se um elemento indispensável para que a outra pessoa cresça. Reconhecer os talentos é o dom maior.

A escuta amorosa – Não basta escutar a outra pessoa só por educação ou formalismo. A vivência comunitária supõe uma escuta verdadeira. É preciso “saber perder tempo”. É na escuta que se ama. O caminho da escuta é o amor. Escutar é permanecer de portas abertas, para que o outro encontre espaço de ser acolhido e ouvido. Escutar é deixar toda a atividade presente, para se colocar à disposição do outro. A palavra vem sempre depois da escuta. Não é por acaso que o Criador nos deu dois ouvidos e somente uma boca. Escutar não significa também ter respostas prontas para tudo.

A correção fraterna – Corrigir é também necessário. Saber fazê-lo sem ferir é uma virtude do coração. Uma correção sem amor, irrita, machuca e torna insuportável o ambiente. O amor é o único caminho para recuperar o outro. Saber corrigir exige também deixar-se corrigir. A nossa grandeza não está em acertar sempre, mas em reconhecer os erros de hoje, para acertar amanhã. Sem correção fraterna não haverá caminho aberto para o futuro da comunidade. Saber corrigir é florescer de novo.

As prioridades – É necessário definir com clareza, algumas prioridades. Caso contrário, o cansaço e o desânimo tomam conta dos membros. Comunidades sem prioridades se tornam ativistas, mas nem sempre missionárias. Fazem-se muitas coisas ao mesmo tempo, porém sem critérios. A vida comunitária é feita de momentos de silêncios, segredos, desabafos, projetos e sonhos nem sempre realizados… É necessário evitar na comunidade as “fofocas anônimas”, que tanto prejudicam a nossa vida de comunidade, tais como: – “Disseram-me, ouvi falar, fiquei sabendo” … – É preciso assumir a situação, ou então calar-se, até que haja provas concretas do fato.

O projeto comunitário – Iniciar um planejamento na comunidade até que é fácil, o mais difícil é terminá-lo juntos. A perseverança possibilita também os frutos na missão. Hoje, mais do que nunca, a vida comunitária, precisa recuperar a sua transparência e sua simplicidade. As leis comunitárias que não libertam devem ser revisadas e, se precisar, mudadas. A liberdade é, em primeiro lugar, dom interior que dá espaço para o outro crescer. Confiar um trabalho ou uma responsabilidade significa que acreditamos na outra pessoa, pois a vida comunitária baseia-se sempre na lei do amor recíproco.

A disponibilidade – A teologia da disponibilidade nunca foi tão aprofundada como hoje. O tempo e a agenda limitam nossa disponibilidade. A vida exige sempre mais solicitações e compromissos. Procuram-se pessoas disponíveis para pequenos serviços. Saber usar, com nobreza, a caneta ou o computador e mesmo a vassoura, é privilégio de poucos. Precisar de alguém é a humildade da alma, misturada com sua grandeza do coração. Quem presta um serviço na gratuidade não fica esperando recompensas em troca. Disponibilidade é também sinônimo de gratuidade.

O lava-pés – Na História da Igreja, percebemos que os mosteiros eram conhecidos pela sua capacidade de acolhimento. O porteiro era escolhido por toda a comunidade, por ser a pessoa mais serviçal e mais alegre. Ele devia estar sempre pronto para receber qualquer hóspede que chegasse de perto ou de longe, em qualquer hora do dia ou da noite. Sua primeira função era lavar os pés do recém-chegado, oferecer água, alimentos, providenciar a hospedagem e, o mais importante de tudo, “ver nele a pessoa de Cristo”. Em nossas comunidades, este gesto do lava-pés, muitas vezes, fica esquecido. É um ato de amor, que se traduz depois em doação e serviço. A Quinta-feira Santa não pode ser apenas um dia do ano e nem um gesto emocional passageiro, mas é um sacrário vivo no meio da comunidade. É um gesto a ser reverenciado e lembrado sempre em nossas comunidades.

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