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3º Domingo da Quaresma

05/03/2021
in Homilia
A A

Homilia de Domingo 07.03.2021

Evangelho

O corpo de Jesus é o novo Templo

1ª Leitura: Ex 20,1-17 ou 20,1-3.7-8.12-17
2ª Leitura: 1Cor 1,22-25
Evangelho: Jo 2,13-25

-* 13 A Páscoa dos judeus estava próxima, e Jesus subiu para Jerusalém. 14 No Templo, Jesus encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. 15 Então fez um chicote de cordas e expulsou todos do Templo junto com as ovelhas e os bois; esparramou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16 E disse aos que vendiam pombas: «Tirem isso daqui! Não transformem a casa de meu Pai num mercado.» 17 Seus discípulos se lembraram do que diz a Escritura: «O zelo pela tua casa me consome.»

18 Então os dirigentes dos judeus perguntaram a Jesus: «Que sinal nos mostras para agires assim?» 19 Jesus respondeu: «Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei.» 20 Os dirigentes dos judeus disseram: «A construção desse Templo demorou quarenta e seis anos, e tu o levantarás em três dias?» 21 Mas o Templo de que Jesus falava era o seu corpo. 22 Quando ele ressuscitou, os discípulos se lembraram do que Jesus tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.

Jesus conhece o homem por dentro –* 23 Jesus estava em Jerusalém durante a festa da Páscoa. Vendo os sinais que ele fazia, muitos acreditaram no seu nome. 24 Mas Jesus não confiava neles, pois conhecia a todos. 25 Ele não precisava de informações a respeito de ninguém, porque conhecia o homem por dentro.


* 13-22: Para os judeus, o Templo era o lugar privilegiado de encontro com Deus. Aí se colocavam as ofertas e sacrifícios levados pelos judeus do mundo inteiro, e formavam verdadeiro tesouro, administrado pelos sacerdotes. A casa de oração se tornara lugar de comércio e poder, disfarçados em culto piedoso. Expulsando os comerciantes, Jesus denuncia a opressão e a exploração dos pobres pelas autoridades religiosas. Predizendo a ruína do Templo, ele mostra que essa instituição religiosa já caducou. Doravante, o verdadeiro Templo é o corpo de Jesus, que morre e ressuscita. Deus não quer habitar em edifícios, mas no próprio homem..

* 23-25: Para acreditar em Jesus, não basta aceitá-lo como Messias nos moldes tradicionais, isto é, como um chefe que exerce função nacionalista através do poder e domínio. Acreditar em Jesus é aceitá-lo como o Messias que realiza o projeto de Deus e que dá sua própria vida, rompendo as muralhas de separação entre os homens. Jesus rejeita qualquer adesão que instrumentalize a sua ação em favor de interesses de grupo. Este trecho serve como introdução a todo o diálogo com Nicodemos (3,1-36).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Comentário

A adoração de Deus e a cruz de Cristo

O tema central de hoje é a adoração de Deus, aquilo que o A.T. entende por “temor de Deus”: não medo infantil diante de um Deus policial, mas submissão e receptividade diante do mistério. Israel não pode “temer” outros deuses (2 Rs 17,7.35 etc.). Só a amizade (“graça”) do Senhor vale a pena temer perder. Tal temor de Deus se expressa, antes de tudo, na Lei do Sinai, cujo resumo são os Dez Mandamentos (1ª leitura). Inicia com o mandamento do temor de Javé: só a Javé se deve adorar, pois ele é um Deus que age: tirou Israel do Egito. Mas o temor de Deus não diz respeito tão-somente à atitude diante de Deus, mas também ao relacionamento com o próximo (o co-israelita). Pois Javé não estaria bem servido com um povo cujos membros se devorassem mutuamente. Daí o “culto” (veneração de Deus) implicar imediatamente um ethos (critérios de comportamento). No espírito dos antigos israelitas, o Decálogo era algo como um pacto feudal. Javé era o suserano, que fornecia força e proteção, mas esperava da parte do vassalo, Israel, colaboração e “temor”, a adoração de Javé e o relacionamento fraterno no seio do próprio povo. Pois, sem estas duas condições, Israel não valeria nada como “povo de Javé”. Em termos nossos: para servir (para) Deus, não basta ser piedoso; é preciso “ser gente” no relacionamento com os irmãos.

Jesus veio nos ensinar, não tanto por suas palavras, mas, sobretudo, por seu gesto de doação total, o que é obedecer a Deus e ser irmão dos homens. Seu gesto é mais eloqüente do que qualquer decálogo. Doravante, a adoração de Deus não mais se chama temor, mas amor a Deus (1Jo 4,18). Porque em Jesus Deus não se revela como guerreiro, como no tempo do Êxodo, mas como “meu Pai e nosso Pai” (Jo 20,18). Por isso, Jesus é o verdadeiro lugar de adoração de Deus. “Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores não mais adorarão no templo de Jerusalém ou no monte Garizim, na Samaria, mas em espírito e verdade”, i.é, naquilo que Jesus nos comunica (Jo 4,22-25). Evocando a visão da glória no templo (Is 6), Jo 1,14 escreve: “O gesto de comunicação de Deus se tornou existência humana e (nesta) nós contemplamos sua glória”. Jesus é o novo templo, lugar da manifestação da glória (cf. 2,11), sobretudo, na “hora” da morte (12, 23.28; 13,31; 17,1 etc.). Por isso, quando Jo narra que Jesus purificou o templo de Jerusalém, não destaca – como Mc – que Jesus se revoltou contra a abusiva correria e profanação no templo. Jo escreve que Jesus expulsou até os animais do sacrifício; em outros termos, pôs fim ao culto do templo; e no diálogo explicativo que segue (2,18-22), o corpo do Cristo ressuscitado e glorioso se revela ser o novo templo, que em três dias será erguido (evangelho).

Em tal contexto, entendemos o “fanatismo” com que Paulo anuncia a cruz de Cristo (2ª leitura). Escândalo para os judeus, porque a cruz é um instrumento indigno para a morte de um judeu. Loucura para os pagãos, com sua filosofia elitista (estóicos) ou hedonista. Mas para os chamados dentre todos os povos e nações, é a revelação da força de Deus e de sua sabedoria. Nós sabemos por quê: porque Deus quer conquistar corações, que se convertem diante da conseqüência de seu próprio orgulho. Por isso, o acesso a Deus acontece doravante no Cristo rejeitado, pois é nele que encontramos o gesto de reconciliação de Deus para conosco.

Chamamos a atenção para o canto da comunhão, a alegria de estar na morada de Deus, “con-templar”. O ativismo que invadiu a vivência cristã ameaça esta presença junto de Deus, que, contudo, é condição indispensável para colocarmo-nos em sintonia com sua maneira de salvar que é a cruz.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes


Mensagem

A aliança de Deus e a cruz de Cristo

A Quaresma é tempo de preparação ou de renovação batismal. No afã de instruir os fiéis, a liturgia do 3º domingo apresenta os Dez Mandamentos (1ª leitura). Não são meros  “preceitos”. A primeira frase não é um preceito, mas a expressão do benefício que Deus prestou a seu povo. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa de escravidão”.  Os Dez Mandamentos têm a forma de uma “aliança”, de um pacto entre um soberano e seus subalternos. O soberano “entra” com sua proteção e força, os subalternos com sua colaboração. Deus mostrou sua força, tirando o povo do Egito. Agora, os subalternos vão colaborar, observando as regras necessárias para que o povo que Deus escolheu para si fique em pé. São regras vitais: respeitar e adorar a ele só, e respeitar-se mutuamente, na justiça e na solidariedade. Estas duas regras são necessárias para que o povo não se desintegre pela divisão religiosa e pela divisão político-social. São as duas tábuas da Lei: o amor a Deus e o amor ao próximo. Desde então fazem parte do catecismo, até hoje.

Esse Deus, que nos manda adorar a si e amar os nossos irmãos, dá-se a conhecer de forma sempre mais concreta através da História. Os antigos israelitas o concebiam sobretudo como “o Senhor dos Exércitos”, o Todo-Poderoso, que os tirou do Egito. São Paulo, porém, depois que se converteu a Jesus de Nazaré, percebeu Deus de outra maneira. Deus não se manifesta só no poder; em Jesus, manifestou-se na frequeza da cruz, “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos”( 2ª leitura). Loucura também para os cristãos de nome que somos nós, que preferimos cuidar de nosso próprio proveito, enquanto mais que a metade da humanidade vive na miséria, e isso, bem perto de nós.

Esse Deus da “loucura do amor”, que se manifesta em Jesus, é o centro do evangelho de hoje, que orienta nosso olhar para a obra do amor fiel que Jesus levará a termo em Jerusalém. Jesus entra no Templo, irrita-se com os abusos – comércio em vez de oração – e expulsa, até com chicote, os animais do sacrifício e os vendedores. Ora, expulsando, na véspera da Páscoa, os animais do sacrifício – um para cada família de peregrinos – ele põe fim ao regime do Templo (que servia exatamente para os sacrifícios dos animais). O evangelista acrescenta que os discípulos mais tarde entedenderam que a esse gesto se referiam as palavras do Sl 69,10: “O zelo por tua casa me devorará”. E quando os chefes exigem um sinal de sua autoridade, Jesus responde: “Destruí este santuário, eu o reerguerei em três dias”. O evangelista explica que ele falava da ressurreição, do templo de seu corpo, que desde agora toma o lugar do templo de pedra. Jesus é o lugar do verdadeiro culto, da verdadeira adoração, do encontro com Deus. Jesus crucificado.

Jesus renovou a primeira Aliança, a de Moisés e da Lei, no dom de sua própria vida. Este dom é agora o centro de nossa religião, de nossa busca de Deus. Uma vida que não vai em direção da cruz não é cristã.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes 


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