
Artigo escrito por
Alice Lemos Staniszewski
Símbolo cultural e econômico do Paraná, a erva-mate atravessa gerações, preserva tradições centenárias e, ao mesmo tempo, conquista novos mercados por meio da inovação. Ganhou destaque internacional ao ter seu sistema tradicional de cultivo reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Patrimônio de Sistemas Agrícolas de Importância Global, em maio de 2025.

Originária da América do Sul, a erva-mate (Ilex paraguariensis) é nativa dos estados do Sul do Brasil e também está amplamente presente na Argentina, Uruguai e Paraguai. Seu uso remonta aos povos indígenas, especialmente os guaranis, que a consumiam séculos antes da chegada dos colonizadores. Considerada uma planta sagrada, era utilizada em rituais, além de servir como bebida energética, remédio natural e até mesmo como moeda de troca entre diferentes grupos indígenas.
Ao longo dos séculos, a cultura se consolidou como parte da identidade regional. Consumida em diversas formas, desde o tradicional chimarrão e o tereré até o chá-mate gelado popular nas praias do Rio de Janeiro, a planta conquistou espaço em diferentes regiões do país.
Além de seu valor cultural, é amplamente reconhecida pelo potencial de seus compostos bioativos para a promoção da saúde. Rica em cafeína, teobromina, ácidos fenólicos, saponinas e flavonoides, a planta apresenta propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, anticarcinogênicas e antidiabéticas. Esses compostos contribuem para a ação diurética, auxiliam na aceleração do metabolismo, favorecem a digestão e estão associados ao controle dos níveis de colesterol
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PARANÁ LIDERA A PRODUÇÃO NACIONAL
O Paraná é atualmente o maior produtor de erva-mate do Brasil. Em 2024, o Estado produziu 897,4 mil toneladas, volume que representa quase 90% da produção nacional. A atividade gerou R$ 1,15 bilhão em Valor Bruto da Produção (VBP), segundo dados do Departamento de Economia Rural (DERAL), da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (SEAB).
A relevância da cadeia produtiva motivou a inclusão da erva-mate como protagonista de uma edição do Projeto Orgulho Paraná, iniciativa do Sistema FAEP que valoriza produtos da agropecuária paranaense e aproxima os consumidores da história e da origem dos alimentos e matérias-primas produzidos no Estado.
SÃO MATEUS DO SUL: REFERÊNCIA NACIONAL
Entre os municípios com maior participação na produção estadual destacam-se São Mateus do Sul, Cruz Machado e Bituruna (SEAB, 2024). A importância de São Mateus do Sul para a erva-mate brasileira vai além dos números. A sua história se confunde com a própria formação do município e de inúmeras famílias que construíram sua trajetória em torno da atividade.

São Mateus do Sul abriga a primeira Indicação Geográfica (IG) de erva-mate do Brasil, reconhecimento que atesta a singularidade e a qualidade do produto local. A IG conquistada pela região fortalece ainda mais o reconhecimento das empresas instaladas no município, agregando valor ao produto e ampliando sua competitividade nos mercados nacional e internacional.
Desde o início da ocupação da região, a erva-mate foi muito mais do que um produto comercial. Ela se tornou parte da paisagem, da cultura e da identidade local.
O manejo tradicional sempre respeitou o ritmo da natureza, com o cultivo realizado sob a sombra de árvores nativas, especialmente as araucárias. Esse sistema preserva a floresta, estimula o reflorestamento e contribui para a manutenção da biodiversidade.
Essa relação entre tradição e respeito ao ambiente também se reflete no processamento da erva-mate. A produção destinada ao chimarrão passa por etapas fundamentais, como o sapeco, a secagem e o cancheamento. Na região de São Mateus do Sul, um dos diferenciais está justamente nessa fase final do processo. Após a secagem, ainda existem propriedades em que a erva é moída em uma cancha, estrutura tradicional onde um triturador de madeira passa sobre o produto.
Essa combinação entre técnicas tradicionais de cultivo e processamento contribuem para preservar não apenas a qualidade da erva-mate, mas também os costumes associados ao seu consumo. As tradicionais rodas de chimarrão continuam sendo um símbolo de convivência e integração social em todo o Sul do Brasil, especialmente em São Mateus do Sul.
Essa forte ligação da comunidade com a bebida pode ser observada na “Rua do Mathe”, espaço construído com apoio do Governo do Estado e que abriga um “Chimarródromo” equipado com torneiras de água quente. O local se tornou um ponto de encontro para moradores e visitantes, reforçando o papel da erva-mate como patrimônio cultural e expressão da identidade regional.
INOVAÇÃO ABRE NOVOS MERCADOS
Ao mesmo tempo em que preserva sua história e suas práticas tradicionais, a cadeia produtiva da erva-mate busca novos caminhos para agregar valor ao produto. A planta já não se limita às formas tradicionais de consumo e vem se transformando em matéria-prima para uma ampla variedade de produtos, ampliando as oportunidades de mercado e fortalecendo a sustentabilidade econômica do setor.
Esse movimento ganha ainda mais importância diante de uma característica própria da cultura. A erva-mate possui desenvolvimento lento quando comparada a outras atividades agrícolas. Após o plantio, são necessários entre dois e três anos para a primeira colheita, enquanto a plena maturidade produtiva costuma ser alcançada a partir do 6° ano. Esse ciclo longo exige planejamento dos produtores e reforça uma preocupação recorrente no setor: como absorver o aumento da produção e garantir a viabilidade econômica da atividade no longo prazo.
Nesse contexto, a diversificação do uso da erva-mate surge como uma estratégia fundamental. Atualmente, empresas e instituições de pesquisa desenvolvem aplicações nas áreas de alimentos, bebidas, suplementos e cosméticos. Doces, sucos, energéticos, extratos e produtos de beleza à base de erva-mate representam novas oportunidades de negócios e ampliam o potencial econômico da cadeia produtiva.

A inovação também está presente no campo. O uso de mudas clonais tem proporcionado crescimento mais rápido e uniforme das plantas, aumentando a produtividade e promovendo maior padronização da matéria-prima. Essas tecnologias contribuem para o desenvolvimento de produtos com maior valor agregado e ampliam a capacidade do setor de atender consumidores que buscam alimentos naturais, funcionais e nutritivos.
Mais do que aumentar a produção, o desafio está em desenvolver produtos capazes de alcançar públicos que ainda não conhecem a erva-mate. Compreender o comportamento do consumidor é essencial para ampliar os horizontes da cadeia produtiva e permitir que o setor avance para além do mercado tradicional do chimarrão.
A diversificação também responde às exigências de consumidores cada vez mais atentos à sustentabilidade, à rastreabilidade e à origem dos produtos. Essa estratégia fortalece a inserção da erva-mate paranaense em mercados internacionais, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, onde produtos certificados e com origem comprovada alcançam maior reconhecimento e valor agregado.
Dessa forma, a erva-mate consolida sua posição como um patrimônio cultural, ambiental e econômico do Paraná, reunindo tradição, sustentabilidade e inovação em uma cadeia produtiva que continua evoluindo e conquistando espaço dentro e fora do Brasil.
Errata: Na revista impressa o nome do articulista saiu como Aline Oss. Pedimos desculpa, porque o nome da contribuidora do artigo é Alice Lemos Staniszewski










