Igreja Católica Apostólica Romana

Frei Bruno Glaab explica o Livro do Apocalipse

"O Apocalipse nos diz para não desanimarmos, mas mantermos a fé. Jesus é Senhor da História.”

Clero e leigos em formação sobre o Apocalipse, no salão da matriz Nossa Senhora de Fátima. À frente Frei Bruno Glaab.

Reunido com o clero da Diocese, dos dias 26 à 28 de setembro, Frei Bruno Glaab, de Porto Alegre, ministrou a Semana Teológica. A formação se deu na Matriz Nossa Senhora de Fátima, em União da Vitória e envolveu também religiosas, seminaristas religiosos e diocesanos, leigos professores de teologia, contando também com a presença de Dom Walter, bispo emérito. Frei Bruno é irmão do padre Mário F. Glaab, administrador diocesano. A organização do espaço do encontro contou com o envolvimento de voluntários (as) da paróquia, que prontamente e com muito carinho aprontavam o café da manhã e o cafezinho dos intervalos, proporcionando assim maior comodidade aos participantes.

No canto esquerdo, padre Antônio Carlos. Ao seu lado, padre Mário, irmão do Frei Bruno.

O objetivo da Semana Teológica é proporcionar uma atualização em assuntos da área da Teologia. Neste ano o assunto foi o Livro do Apocalipse, último Livro do Novo Testamento, da Sagrada Escritura, com o tema: “Apocalipse. Um livro misterioso. Nem tanto”.

Professor de Teologia na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF), Frei Bruno leciona diversas disciplinas do Novo Testamento. Em entrevista ao Estrela Matutina, o padre explicou como melhor ler a Bíblia e interpretar corretamente o Livro do Apocalipse. Acompanhe na sequência.

Entrevista:

Experiências em Porto Alegre

“Além do Curso Acadêmico de Teologia, nossa Escola tem ainda oito cursos de extensão espalhados pelo Estado, dando formação popular com duração de dois anos, sempre um final de semana por mês. Se estuda três finais de semana o Antigo Testamento, e mais quatro sobre o Novo Testamento, e outras disciplinas da Teologia.

Há uma grande busca hoje por formação. Temos mais de mil leigos fazendo esse curso de extensão popular. Acredito que no passado ‘dormimos’ um pouco. Dava-se muito catecismo e pouca Bíblia. Tanto é que antes do Concílio Vaticano II, no Brasil existia apenas uma única tradução da Bíblia, depois, vieram outras. Hoje está muito mais fácil o acesso ao Estudo da Sagrada Escritura para o povo, com uma variedade de traduções bíblicas, incluindo comentários, situando melhor o estudante iniciante”.

O Risco do Fundamentalismo

“A leitura fundamentalista é você ler um relato de Adão e Eva hoje, como se ele fosse escrito no nosso tempo, e isto não dá certo. Livros escritos há quase três mil anos atrás, em uma cultura completamente diferente da nossa, não pode ser lido como se tivesse sido escrito aqui no Estado do Paraná no nosso tempo. É preciso interpretá-lo no contexto, preservando a mensagem.”

Ações nas paróquias

Acredito que as paróquia que dão ênfase às celebrações da Eucaristia onde se diz: ‘Nós comungamos com Cristo pela Hóstia Consagrada’, também deveriam dizer: ‘Nós Comungamos com Cristo também pela Palavra’, dando um enfoque maior na Palavra de Deus’. Até no momento de proclamar a Palavra é preciso um cuidado, havendo preparo das pessoas para não fazer uma leitura ruim, que acabe distorcendo o sentido do texto. A pessoa pode ler bem, mas se ler em cima da hora, vai ler mal.

Por isso, sugiro um Ministério de Leitores, que antes de participarem das celebrações, preparem as leituras. É a Palavra de Deus, não podemos lê-la de qualquer jeito, sem respeitar pontuação e não dando ênfase naquilo que a Palavra quer destacar”.

Grupos de Reflexão

“As paróquias devem se preocupar com Grupos de Reflexão. Em um grupo, quando as pessoas rezam juntos e partilham sua opinião, isso enriquece muito, porque a Bíblia é por excelência livro das comunidades.”

Interpretações erradas do Livro do Apocalipse

O Apocalipse é o Livro mais mal usado pelas pessoas fundamentalistas, pois leem o Apocalipse com uma visão objetiva, e não pode ser assim. Esse livro é um livro simbólico. Ele nasceu no período em que o Império Romano perseguia os cristãos. Então, ele é um livro poético, simbólico, por isso o leitor precisa levar isso em conta, do contrário, cairá no ridículo.

Podemos comparar como quando uma criança diz para sua mãe que ela é o ‘Sol da sua vida’. Ninguém irá interpretar esta frase ao pé da letra, mas tem uma verdade e uma mensagem nessa expressão simbólica dita pela filha ou filho.”

A Mensagem Central do Livro do Apocalipse

A mensagem central do Apocalipse pode ser resumida na frase: ‘Não tenham medo, Jesus Ressuscitado é o Senhor do mundo’. Assim como no tempo em que o livro foi escrito, hoje temos muitos problemas, e muitas vezes desanimamos vendo o mal avançar. Chegamos até a achar que Deus perdeu a batalha. Mas não, devemos crer que Jesus Ressuscitado é o Senhor da história. Mesmo quando tudo vai mal, tem alguém acima desta situação; é o Senhor Ressuscitado.”

Por que trabalhar com o Clero esse assunto?

“Não é porque alguém faz uma faculdade, seja de teologia ou qualquer outra, que a pessoa sabe tudo. O Curso acadêmico dá uma visão genérica, e não aprofundada. Todos os textos bíblicos devem ser aprofundados, pois sempre está acontecendo pesquisas que descobrem situações novas. Se um médico deve se atualizar, assim também o padre, caso contrário ficamos desatualizados.”

A Mensagem da Bíblia para hoje

“Na Sagrada Escritura percebemos como Deus entra e age na história do ser humano, se faz humano e constrói a história conosco. É a chave para vermos que Deus não abandonou a nossa história, mas está conosco ainda hoje, e sempre estará. E o Apocalipse, nos diz para não desanimarmos, mas mantermos a fé. Jesus é Senhor da História.”

Como ler a Bíblia corretamente

“Devemos criar o hábito de ler a Bíblia. Mas, não devemos ficar pulando de texto em texto, devemos usar um certo método. Sugiro primeiro ler as introduções dos Livros para a pessoa se situar sobre aquele livro; depois ler ao menos dez minutos por dia um trecho inteiro. Assim a pessoa consegue ter uma visão do todo. Há algumas espiritualidades por aí que sugerem ler uma frase da bíblia em caixinhas, cada dia uma frase.

Não quero falar mal disso, mas desta forma a pessoa lê aquela frase sem saber o contexto em que ela está. É como você receber uma carta de alguém e separar as frases da carta lendo uma frase à cada dia. A pessoa não vai entender bem o que o escritor quis dizer. A Bíblia é uma carta de Deus ao ser humano, uma carta de amor, de fidelidade, de esperança.

Por isso, se a pessoa ler a introdução do Livro, e um livro por vez, inteiro, começando com os do Novo Testamento, vai assim, entender o todo da Mensagem de Deus para ela”.

Entrevista por, Marcelo S. de Lara
Setor de Comunicação
Diocese de União da Vitória

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