A Igreja na América Latina tem amadurecido na implementação de ações e estruturas para prevenção e enfrentamento dos abusos de menores e vulneráveis em seus ambientes, mas ainda há muito o que avançar neste compromisso pastoral. Essa percepção marcou a mesa de abertura e a primeira conferência do IV Encontro da Rede Latino-Americana e Caribenha para a Cultura do Cuidado, realizado nesta semana na Casa Dom Luciano Mendes de Almeida, em Brasília (DF).

Com representantes de 18 países da América Latina e do Caribe, o encontro foi iniciado na noite de segunda-feira, 31 de agosto. Na manhã desta terça-feira, 1º, a mesa de abertura contou com os pronunciamentos dos representantes das instituições que compõem a Rede. Na primeira conferência do encontro, o presidente da Comissão para a Tutela de Menores e Pessoas Vulneráveis da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Wellington de Queiroz Vieira, apresentou caminhos para que a ação da Igreja na proteção de menores e vulneráveis seja incorporada na ação pastoral de forma efetiva.
Tema desafiador
O arcebispo de Porto Alegre (RS), cardeal Jaime Spengler, presidente da CNBB e do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), deu as boas-vindas aos participantes, manifestando ser “motivo de honra e profundo senso eclesial” acolher os responsáveis nacionais das comissões de proteção de menores e adultos vulneráveis.
Para o presidente da CNBB e do Celam, o tema da proteção “nos desafia a todos e precisamos de vigilância, cuidado e respeito”.
Ele fez votos que o encontro “possa nos ajudar a compreender mais e melhor a dignidade e a necessidade de promovermos essa cultura do cuidado, estando atentos à tutela dos menores e das pessoas vulneráveis, mas, ao mesmo tempo, precisamos nos abrir ainda mais”.
“Se o momento nos desafia, é um privilégio podermos participar desta obra, porque o futuro harmonioso, bonito, belo depende das nossas escolhas”, motivou.
Compromisso eclesial
A presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), Irmã Maria do Disterro Rocha Sousa, enfatizou que o encontro sinaliza o compromisso e especial atenção para o tema do cuidado e para a urgência de continuar avançando na reflexão e nos mecanismos necessários “para construirmos juntos e juntas uma cultura que proteja todas as pessoas em situação de vulnerabilidade”.
Para ela, quando a Igreja toca a vulnerabilidade do outro – seja a criança, o migrante, o idoso, o jovem consagrado, a religiosa, o seminarista ou o fiel na confissão – “ela não está exercendo simplesmente uma função assistencial, ela está tocando o lugar exato onde Cristo mora”.
Ao final de sua fala, ratificou que a Conferência dos Religiosos do Brasil “segue comprometida com a construção e o fortalecimento de redes de cuidado e proteção das pessoas em situação de vulnerabilidade”. E desejou que o encontro “fortaleça ainda mais o compromisso e ajude a transformar a reflexão e a escuta desses dias em ações práticas de cuidado e proteção”.
Tema que nasce do Evangelho
O frei João Ferreira Júnior, frade capuchinho delegado da Confederação Latino Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (CLAR), destacou em sua fala que a entidade continental tem integrado a Rede para a Cultura do Cuidado desde a sua fundação. Essa escolha se deve por convicção de que o tema da proteção toca diretamente a vida religiosa consagrada, “por ser um tema nasce do Evangelho”.
“Toca a nossa consagração, o nosso modo, o nosso papel, a nossa vocação na Igreja, toca aquilo que como missão como religiosos e religiosas carregamos”.
Outra convicção que baseia a participação da Confederação, segundo frie João, nasce da tarefa de “compreender que há abusos na vida religiosas e que muitas vezes são silenciados, naturalizados, normalizados e que é preciso que, como comunidades, entidades e congreções religiosas, nos coloquemos à disposição para este diálogo”.
O religioso reconheceu o último encontro da Rede, realizado em Santo Domingo, como ocasião importante para a articulação, uma vez que as redes nacionais de religiosos que atuam na proteção de menores e pessoas vulneráveis foram incluídas na articulação.
“O que nós desejamos desde a CLAR é que este encontro possa marcar a história do tema da proteção aqui no Brasil. O que a gente espera é que seja um encontro que nos ajude, desde o Brasil, a ter respostas institucionais ainda mais alicerçadas, relações eclesiais ainda mais transparentes e convicções e confianças eclesiais ainda mais fortalecidas para que desde esse nosso lugar singular da vocação religiosa possamos contribuir com a caminhada da Igreja para o amadurecimento ainda maior dessa nossa opção evangélica da proteção e do cuidado”, destacou
Sentido de sinodalidade
A representante da Cáritas América Latina, Ana Mercedes Árias Pimentel, assessora de fortalecimento organizacional da Cáritas no continente, destacou a compreensão da entidade sobre a cultura do cuidado na qual a dignidade da pessoa humana está no centro. Mercedes destacou o histórico e as ações relacionadas ao tema da proteção, especialmente no que diz respeito à prevenção e à formação nos territórios, no sentido de “viver o cuidado e senti-lo dentro da Igreja”.
“Para a Cáritas, ser parte desta Rede tem um sentido profundo de sinodalidade, porque permite que, como Igreja, estejamos juntas e juntos trabalhemos em torno da cultura do bom tratamento e façamos ações concretas em torno do cuidado”.
Espaço de partilha
O coordenador da Rede Latino-americana e Caribenha para a Cultura do Cuidado, padre Pedro Brassesco, motivou os participantes a aproveitarem o evento como realmente um espaço de encontro com “a confiança suficiente para contar as riquezas, as fragilidades, apresentar as dúvudas”. Assim, continuou, “podemos fazer juntos um caminho com liberdade para perguntar, pedir ajuda, compartilhar o caminho feito”.
Ele recordou as primeiras articulações em vista da efetivação da rede, ocorrida em 2023, além dos momentos de fortalecimento e consolidação do trabalho. Desde então, a iniciativa continental busca promover espaços seguros para crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis, sob o apoio e articulação das Comissões episcopais de cultura do cuidado.
A Rede Latino-americana para a Cultura do Cuidado tem articulado esforços de diversas dioceses e organismos eclesiais para prevenir abusos e proteger as populações vulneráveis em toda a região. O trabalho da rede abrange a formação permanente e a troca de experiências institucionais entre países.
Padre Pedro Brassesco compartilhou que no ano passado, em Santo Domingo, na República Dominicana, foi preparada uma série de propostas para “consolidar as estruturas eclesiais, aprofundar a transparência, integração eclesial, fortalecer a articulação regional”.
Conteúdo: CNBB NACIONAL










