O cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, afirmou que a tragédia do incêndio e desabamento do edifício de 24 andares no centro da capital paulista, na madrugada da terça-feira, 1º, expõe um problema grave de habitação que assola muitas grandes metrópoles do País. Para ele, é preciso que haja uma política que garanta acesso à moradia digna com preços que sejam acessíveis também aos mais pobres. “Não temos um déficit habitacional… o que nós temos é uma distribuição inadequada das habitações… falta uma política habitacional adequada para as necessidades da população”, disse.
Dom Odilo visitou o local do acidente na noite desta quarta-feira, 2. Além de se encontrar com vítimas e os bombeiros que trabalham na busca de desaparecidos, ele acompanhou o trabalho de arrecadação de doações. A Arquidiocese de São Paulo tem auxiliado no atendimento das vítimas e no diálogo com o poder público em busca de soluções emergenciais para as cerca de 150 famílias que ocupavam o prédio.

Causas – A principal hipótese para o incêndio levantada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo é a de acidente doméstico, como a explosão de um botijão de gás ou de uma panela de pressão. Também há relatos de que houve uma briga de casal no quinto andar do edifício, onde começou o incêndio. Segundo peritos do Instituto de Criminalística de São Paulo, um laudo será feito a partir da análise dos objetos e destroços encontrados para se chegar as prováveis causas.
Diálogo e acolhida – No dia do desabamento, dom Carlos Lema Garcia, bispo auxiliar da Arquidiocese, e o padre Julio Renato Lancellotti, vigário episcopal para a Pastoral do Povo da Rua, estiveram no local para ajudar na negociação entre os desabrigados e a Prefeitura. Dentre as alternativas apresentadas para o atendimento emergencial das famílias, foi oferecida a quadra do Colégio São Bento, também na região central, após um diálogo entre os monges beneditinos e a Prefeitura intermediado pela Arquidiocese. O cardeal Scherer chegou a conversar, por telefone, com o Prefeito Bruno Covas, que garantiu oferecer toda a infraestrutura para essa solução provisória até que fosse encontrada uma medida definitiva. Segundo dom Carlos, a presença eclesial facilitou a conversa entre vítimas e a administração municipal. “Pelo trabalho que a Igreja tem junto a essa população existe uma relação de confiança com os representantes das pastorais”, afirmou.
O Secretário de Governo da Prefeitura, Júlio Semeghini, explicou à reportagem que a proposta de um local provisório para abrigar as vítimas tem o objetivo de garantir o mínimo de dignidade para essas famílias e para facilitar as negociações por uma solução permanente. Muitos dos desabrigados temiam ser removidos para albergues da prefeitura para pessoas em situação de rua e serem separados de seus parentes. Também foram oferecidos pela Prefeitura outros dois locais alternativos para a acolhida temporária na região central.
A maioria dos desabrigados, no entanto, optou por permanecer acampada no Largo Paissandu por medo de perderem a força para reivindicar seus direitos. Mas aceitaram ter como ponto de apoio um dos espaços propostos, no Viaduto Pedroso, onde há banheiros, camas e alimentação, especialmente para idosos e crianças. “Tudo isso, por enquanto, é emergencial. Essas pessoas não vão poder ficar nessa situação de maneira permanente”, alertou o padre Julio Lancellotti.
O edifício – Inaugurado em 1968, o Edifício Wilton Paes de Almeida foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental do São Paulo (Conpresp) em 1992. Em 1980, o prédio abrigou a sede da Policia Federal, que em 2003 foi transferida para sua sede atual na Lapa, zona Oeste. Abandonado, o edifício sofreu várias ocupações.
A Secretaria Municipal de Habitação atuava na ocupação do edifício por meio do grupo de Mediação de Conflitos, pois estava prevista a reintegração de posse, movida pela Secretaria de Patrimônio da União. Uma vez desocupado, o imóvel seria cedido à Prefeitura. Entre fevereiro e abril, a Secretaria teria feito seis reuniões com as lideranças da ocupação para esclarecer a necessidade de desocupação do prédio. No dia 10 de março, foram cadastradas cerca de 150 famílias ocupantes do prédio. Desse total, 25% eram estrangeiras. Esse cadastro foi realizado para identificar a quantidade de famílias, o grau de vulnerabilidade social e a necessidade de encaminhamento à rede socioassistencial.
Riscos – O Ministério Público do Estado de São Paulo determinou, na terça-feira, que sejam investigadas as causas do incêndio, além da veracidade dos relatórios técnicos encaminhados pelos órgãos públicos responsáveis pela manutenção e fiscalização. Em 24 de agosto de 2015, a Promotoria de Habitação de Urbanismo já havia instaurado um inquérito civil para apurar a possível existência de risco no imóvel. Em nota, o MP informa que reabriu o caso em virtude dos “gravíssimos fatos ocorridos”.
Em 16 de março, a Promotoria arquivou o inquérito civil após receber um laudo de vistoria da Defesa Civil, quando “não foram constatadas anomalias que implicassem riscos naquela edificação, embora a instalação elétrica estivesse em desacordo com as normas aplicáveis, assim como o sistema de combate a incêndio”.
Destruição de igreja histórica
A Arquidiocese também prestou solidariedade à Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, que teve 80% de seu histórico templo destruído pelo desabamento do edifício localizado ao lado. A pedido do cardeal Scherer, foram iniciados contatos com lideranças luteranas para colocar algum templo católico à disposição da celebração dos cultos, caso seja necessário, enquanto a igreja não for reconstruída. Inaugurada em 25 de dezembro de 1908, o templo é considerado a primeira paróquia evangélica da capital paulista. Entre 2012 e 2013, passou por uma reforma interna.

Os itens de maior necessidade são: alimentos, água, roupas (adulto/infantil), fraldas, sapatos, itens de higiene, colchão/colchonetes, materiais escolares e cobertores. Também estão recebendo doações os seguintes locais: Igreja Santa Ifigênia (Rua Santa Ifigênia, 30); Santuário São Francisco (Largo São Francisco, s/n); Catedral da Sé (Praça da Sé, s/n); Centro de Acolhida (Viaduto Pedroso, 111); Cruz Vermelha (Avenida Rubem Berta, 860).
Projeto Comunicação Integrada Igreja no Brasil
Créditos:
Texto: Fernando Geronazzo – Jornal O São Paulo
Colaborou Rafael Alberto
Fotos: Luciney Martins










