Igreja Católica Apostólica Romana

Esperança em tempos de crise

Esperança

Mas afinal, o que se pode entender por esperança em momentos de crise? A esperança não é uma simples e ingênua saída com a qual se sonha quando as coisas não funcionam mais normalmente. Ela é algo que vai bem mais longe. Estamos falando, não de pensamento positivo (valor da psicologia, que fica, no entanto no nível humano), mas da esperança cristã; virtude que acompanha a fé e a caridade, e junto com elas compõe as virtudes teologais; infusas por Deus no batismo e desenvolvidas pelo cristão durante toda a vida.

A virtude da esperança não traz soluções mágicas para situações angustiantes de crises, mas não abandona as pessoas diante dos desafios, muitas vezes, bem acima das possibilidades de solução. Ela é a certeza de que as forças contrárias não são invencíveis, ou melhor, que o mal não é mais forte que o bem. O possuidor da esperança sabe muito bem que pode sucumbir, mas que, com a força de Deus, lá no fundo do poço haverá uma resposta. Resposta que somente Deus pode dar, mas que será a resposta definitiva. Sabe que intervenções imediatas podem não acontecer, que as forças do mal farão muito estrago, porém, Deus haverá de recuperar o direito e a justiça. É isso que se aprende ao contemplar a vida, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Quando Jesus estava na cruz, gritaram: “Desce da cruz, e nós acreditaremos em ti”. Ele, no entanto, não desceu! Mesmo assim, confiou no Pai, e morreu. Teve esperança contra toda a esperança. A ressurreição é a resposta do Pai; a resposta definitiva.

Em que, então, a esperança se baseia? O que a alimenta ou a sustém? Quanto maiores forem as crises, menos sinais de solução aparecem. Para Jesus, como para tantos justos, quanto mais perto da morte tanto mais sinais de fracasso e de derrota surgiam. Alimentar a esperança em quê? Apenas uma resposta convincente: a esperança é sustentada pela fé e pela caridade. A fé é adesão confiante em Deus, Senhor do Bem e Criador de todas as coisas. Ele não está sob o domínio do mal. A caridade é a relação íntima com esse Deus e com todas as criaturas, em Deus. Quanto mais caridade experimentada, tanto mais a força do Bem se expressa; e a pessoa que a possui ultrapassa as forças malignas.

Se por um lado a esperança se sustenta na fé e na caridade, por outro, estas duas virtudes são sustentadas por ela. É sua larga, humilde e sofrida paciência que reaviva sempre de novo a fé e, impulsiona concretamente a caridade. Esperar, humilde e pacientemente, nas mais duras provações, em Deus que é maior, desperta enormemente a fé e exercita a caridade. Enquanto espera, vive com fé e caridade todos os instantes da existência, e da crise.

A oração em momentos de crise

Para alguns, nos momentos de crise, a saída está na oração. Verdade. No entanto, como rezar diante das cruzes?

Em primeiro lugar, o cristão não ora somente em momentos de provação, ele reza sempre, todos os dias. Contudo, a fé que leva a rezar, também nas situações mais complicadas, não pode ser ingênua. Apesar de pedir o afastamento do cálice, deve dispor a assumir, até as últimas consequências, as lutas contra o mal a que está submetido. Neste exato momento entra em cena a esperança, como virtude cristã que vai além da cruz que se carrega Calvário acima. A fé e a esperança sustentam a caridade que assume num esforço transformador a dor e o peso da cruz. Somente assim, a oração se torna resposta autêntica do cristão diante da cruz, a Deus que o fez para o bem, sem restrições. Pois, a ressurreição não assegura o desaparecimento da cruz nem sequer a vitória histórica sobre ela, mas alimenta a esperança, sustenta a fé e, fortifica a caridade.

Uma vez dito isso, pode-se concluir que a oração cristã não pode ser um mendigar intervencionismos divinos perante as necessidades, os abusos ou as desgraças humanas, mas deve ser a confiante e segura busca de soluções para todos os males que afligem a humanidade, contando com a força que vem do alto, manifestada na ressurreição de Jesus, e de tantos mártires que não hesitaram em doar a vida por uma causa maior do que eles próprios. Assim como Deus não interveio para tirar Jesus da cruz – nem podia, pois estaria negando o amor testemunhado por ele – também não intervém naquilo que cabe a nós fazermos para tornar este mundo mais justo, fraterno e habitável por todos. Se o mal, causado pelos erros e egoísmos humanos, faz sofrer; o cristão reza para ter forças e não esmorecer na luta contra tais sofrimentos. Para com sua fé, esperança e caridade, vencer o mal com o bem.

Pe. Mário Fernando Glaab

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